A imagem ainda incomoda, insiste em ficar na lembrança: maio passado, decisão da Copa dos Clubes campeões, a Juventus enfrentando o Real Madrid, em Amsterdã, na Holanda. ‘‘Minha atuação foi fraca, não consegui jogar o que pretendia’’, recorda Zinedine Zidane, atacante da Juve, que acabou perdendo o jogo por 1 a 0.
No instante seguinte, porém, Zidane muda o pensamento e visualiza o futuro, com a França conquistando a Copa do Mundo, na final de hoje, contra o Brasil. A festa dos jogadores e da torcida, a volta olímpica, o beijo na taça, tudo é criado mentalmente pelo jogador que prefere mais sonhar que falar, que troca as palavras pelo silêncio.
Aos 26 anos, o jogador mais cultuado pela torcida francesa é um tímido irreparável. Sua foto está na capa da maioria das revistas esportivas - mesmo assim, Zidane não se empolga. Nem mesmo com os inúmeros outdoors com a reprodução de seu rosto, espalhados pelas principais cidades francesas.
Nas entrevistas, fala baixo, com diversas pausas. Gosta de mirar o interlocutor nos olhos. Justifica dizendo que aprendeu com o pai, mais tímido ainda. Demora para confessar que vai fazer o possível para marcar o gol do título. ‘‘Será o meu grande feito’’, conta.
É por esse meio que Zidane quer ser lembrado: por gols, não palavras. Filho de imigrantes argelinos, nasceu em Marselha, cidade onde o futebol é venerado. Por isso, a cobrança é mais intensa, apaixonada. ‘‘Aprendi a respeitar o futebol, principalmente por imposição paterna’’, conta o jogador, mais conhecido pelos torcedores pelo apelido de Zizou.
Zidane só se modifica em dois momentos. No primeiro, quando fala do jogador uruguaio Enzo Francescoli, seu ídolo de infância. ‘‘Até coloquei o nome de Enzo em meu filho como homenagem’’, conta.
No outro instante, é quando comenta a final da Copa: o atacante francês respeita a Seleção Brasileira, que aponta como favorita para conquistar o título. Mas, no único momento em que seus olhos traem, revela um entusiasmo incontrolável: ‘‘O Brasil não é imbatível’’.
Agência Estado - O que a França deve fazer para vencer o Brasil?
Zidane - Dedicar muito esforço. Precisaremos jogar 200% da nossa capacidade para conseguir a vitória, pois o Brasil é o grande favorito. Teremos de dar tudo para conquistar alguma coisa. Mas também os brasileiros precisarão de muita dedicação para nos derrotar. Eles percorreram uma trajetória extraordinária, mas seremos onze contra onze.
AE - Qual é sua opinião sobre Ronaldo?
Zidane - É um dos maiores jogadores do Mundial. Basta ver seu esforço na partida contra a Holanda, em que ainda marcou um gol maravilhoso. Sua dedicação é invejável. Mas, mesmo assim, não acho que seja o grande nome dessa Copa.
AE - Então, quem é?
Zidane - Para mim, é Thuram. Ele jogou fora de sua posição, mas manteve uma garra e uma determinação que incentivaram muito o time. E também ele fez os dois gols contra a Croácia, que trouxeram nossa classificação e nos livraram de um grande mal.
AE - Qual?
Zidane - O de disputar uma nova prorrogação. Já tinhamos passado por isso contra o Paraguai, que vencemos na morte súbita, e Itália, que derrotamos na cobrança de pênaltis. É muito desgastante, tanto física como mentalmente. Se tivéssemos participado de um novo tempo extra, nossa condição física estaria comprometida para final.
AE - Você se imagina marcando o gol da vitória?
Zidane - Não importa quem vai fazer. Posso ser eu, como o Djorkaeff ou até mesmo o Thuram novamente. Nossa preocupação é armar jogadas que resultem em gols, não importando quem faça. (Faz uma pausa) Mas, não posso negar que sonho muito em fazer esse gol.
AE - A última decisão de que você participou, na Copa de Clubes campeões, não conseguiu vitória. Agora será diferente?
Zidane - Não dá para comparar. Aquele jogo foi uma final entre times, que tem uma dimensão mas não tão grande como uma decisão entre nações. Agora é muito mais importante e ficará para sempre na história do futebol francês.
AE - Você acredita que a ausência de Laurent Blanc será muito prejudicial para o time?
Zidane - Sem dúvida que ele vai fazer falta. Sua presença dá muita força ao time. Não me conformo com forma estúpida como Blanc foi expulso (o zagueiro deu um tapa no rosto de um jogador da Croácia). Aquilo não foi uma agressão, mas um lance normal de uma partida tensa. Para ele, será mais difícil superar a expulsão do que foi para mim, pois não poderá disputar a final da Copa do Mundo. Por isso, ganharemos o título para ele.
AE - Você acredita que o time precisa de uma tática especial para enfrentar o Brasil?
Zidane - Acho que não devemos mudar nosso estilo de jogo. Principalmente porque foi provado que é eficiente. Também temos jogadores com diversos estilos, o que significa uma série de opções táticas para o treinador. Até para jogadas rápidas, pois ele tem o Thierry Henry, que é muito veloz e habilidoso. Será um jogo de várias alternativas, que vai privilegiar as táticas mais inteligentes. Será uma final memorável.

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