Rio - Em geral, os grandes técnicos do Brasil conquistam primeiro o mercado interno para depois tentar a sorte pelo mundo afora. Foi assim com Luiz Felipe Scolari, com Vanderlei Luxemburgo e, em parte, com Carlos Alberto Parreira. Um dos maiores craques do futebol mundial, Zico tomou caminho inverso. Destacou-se no comando da seleção do Japão, entre 2002 e 2006, depois de um longo período treinando o Kashima Antlers, e passou 15 anos cruzando, quase uma vez a cada dois meses, os 18.553 quilômetros que separam o Rio de Tóquio.
Hoje, Zico dirige o Olympiacos, da Grécia. Mas, até chegar à terra de Platão e Sócrates, ele fez uma via-crúcis por outros países do Leste Europeu. Esteve no Fenerbahçe, da Turquia, apresentou o Usbequistão aos brasileiros - ao trabalhar no Bunyodkor, clube treinado agora por Felipão e liderado por Rivaldo -, e experimentou o frio de Moscou, a convite do CSKA.
''Conhecer diversas escolas de futebol é um grande aprendizado'', disse Zico, antes de fazer uma revelação: ''Tudo isso aconteceu por acaso. Não pretendia ser treinador, mas quando me pediram para ser o técnico, tanto do Kashima quanto da seleção japonesa, simplesmente não tive como dizer não.''
A retribuição se deve à maneira como foi tratado ao longo de sua passagem como atleta pelo Japão. ''Depois, a mosca azul de treinador me 'mordeu', passei a gostar do que faço e me senti em condições de seguir outra bela carreira'', confessou Zico.
Essa vida de andarilho vai na contramão da história do Galinho de Quintino, apelido com o qual convive desde os tempos em que jogava nas categorias de base do Flamengo, quando morava no subúrbio carioca de Quintino. Como jogador, ele vestiu a camisa flamenguista por 20 anos e acumulou centenas de gols e dezenas de títulos. Parecia afeito a pontuar sua trajetória de técnico por decisões mais caseiras, apegado que sempre foi à família e aos amigos.
Até fundou um clube, o CFZ, em 1996, na zona oeste do Rio, para tentar revelar jovens talentos. Antes, porém, acabou seduzido por uma proposta milionária para encerrar a carreira de atleta no Sumitomo Metals (atual Kashima Antlers), de onde foi alçado à condição de treinador. Desde então, abraçou a atividade com a mesma disciplina que o levava a cobrar faltas no Flamengo por uma ou duas horas depois dos treinos.
''Tenho de me acostumar com essa roda-viva. Mas não é nada bom, gostaria de um dia poder me fixar em algum lugar'', admitiu. Essa declaração pode apontar, segundo os flamenguistas mais entusiasmados, para uma volta de Zico ao seu clube de coração. Uma corrente na sede da Gávea é a favor de que o maior ídolo da história do Flamengo venha a coordenar o futebol profissional do clube já a partir do próximo ano. Vai depender da mosca azul.

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