O grande estádio está vazio. O silêncio só não é absoluto porque um bando de quero-queros protegem o ninho próximo ao ''Gol da Ferradura''.
As lembranças do velho homem estão em cada canto da praça esportiva. Nas arquibancas, em cada um dos portões de metal, dentro dos vestiários que abrigaram abraços de euforia e de consolo, no banco de reservas onde sentaram rebeldes e conformados.
Há semanas não há futebol para as torres de refletores iluminar e o final da tarde acalma Zeferino Pasquini, 66 anos, o administrador do Estádio do Café, o campo em recuperação que é o palco nobre do futebol pé-vermelho.
Os ''três paus'' formam uma janela que se agiganta no campo deserto. De perto, os 7m32 de distância entre os dois postes e os 2m44 de altura entre o chão e o travessão parecem indefensáveis depõem contra os atacantes de má pontaria, anistiam os goleiros que se esticaram em vão antes do gol.
Mas, quando Zeferino se aproxima da meta, se sente confortável como poucos. Foi de costas para a rede que ganhou a vida, se tornou celebridade na cidade, conquistou em seu censo exagerado ''um milhão de amigos''.
Sem bolo, sem vela, sem festa, o paulista de São Manuel celebrou, com a solidão que acompanha os goleiros, seus 45 anos de chegada a Londrina, onde desembarcou no dia 28 de setembro de 1957, dois dias antes de completar a maioria absoluta.
''Tava parado em São Manuel e os viajantes de lá vinham para o Norte do Paraná vender carro, fazer rolo. Eles falavam que aqui tinha um baita time, que pagava bem. Fiquei interessado e um diretor do Londrina me levou''. Veio para fazer um amistoso, mas jogou dezenas de vezes imprecisão de uma época sem estatística com a camisa escura número 1 do LEC.
A estréia foi contra o Atlético Paranaense, vitória do LEC por 4 a 1 (24 de novembro de 1957). Duas semanas depois, Zeferino já sabia que teria vida longa no Caçula Gigante. Participou da histórica goleada sobre o Corinthians (que havia dominado o futebol paulista na primeira metade daquela década) por 5 a 3. O jovem de origem luso-italiana percebeu que os viajantes de São Manoel entendiam tanto de carro quanto de futebol. O desconhecido time do Norte do Estado havia realizado uma proeza.
O Timão perdia uma invencibilidade de 32 jogos e Zeferino um jovem que já havia convivido com Gilmar, Luisinho, Cláudio, Baltazar, Roberto Belangero, enfim, com a grandeza do time mais popular de São Paulo estava do outro lado. E feliz.
Foi assim por cinco temporadas. A glória maior lhe escapou em 1962, quando o Londrina de Gauchinho conquistou o primeiro título estadual. Uma cirurgia no joelho parecia finalizar sua história com a cidade, onde nasceu seus três filhos Maria Júlia, 40 anos, Maria Eugênia, 18, Mateus 12, onde casou pela segunda e pela terceira vez, onde tornou-se avô por três vezes.
Em 63, já estava no São Bento, de Sorocaba, onde enfrentou o assombroso Santos, de Pelé. Nos anos de ouro, Zeferino virou cigano. Jogou no Barretos, Portuguesa Santista e Coritiba. Voltou ao Londrina no final da década e esteve no grupo de profissionais até 1974. Defendeu também o Marília, a Ponte Preta, o Atlético Paranaense, Britânia e Olímpia.
No ano seguinte, tornou-se treinador de goleiros e sofreu do lado de fora na épica campanha do Nacional de 1977/78. Atravessou a década de 80 na função. Depois de um recesso em meados desta década, voltou ao posto, desta vez preparando os juniores, onde está até hoje.
''Quando estou com os garotos, me sinto um menino também'', explica a disposição que as quatro décadas não diminuíram. ''Quando eu não puder estar em um campo, você pode ter certeza, estarei doente em uma cama'', diz enfaticamente o homem que mora sozinho em uma dependência na zona leste e que ainda sonha com a casa própria. ''O futebol é o soro da minha vida''.
Mas, o velho boleiro, que já ganhou dinheiro com a latinha e com seus comentários bem humorados (foi repórter de campo da Rádio Paiquerê, da Clube, da Alvorada, e comentarista da TV Tibagi), acalenta um sonho bem realizável: quer que o Londrina encontre dinheiro para pagar uma ação trabalhista que já tramita há oito anos. São R$ 30 mil de salários que nunca recebeu. ''Jamais aceitei que penhorassem renda ou passe de jogador. Quero receber através de um acordo amigável''. Coisa de quem ama o Tubarão. ''Só quero morar em um lugar que seja meu''.

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