Dia 26 de julho de 1959. O Estádio Vitorino Gonçalves Dias estava totalmente lotado por um público que proporcionou recorde de renda. Numa descida pela direita, o lateral direito Melado faz um levantamento na área da Portuguesa. O goleiro Pafúncio titubeia. Arinho, percebendo que não daria tempo do goleiro ir na bola, tenta alcançá-la. Não deu. Pouco atrás está o centroavante Nelson, que de cabeça marcou o único gol do primeiro derby do futebol profissional da cidade: Londrina 1 x Portuguesa 0.
Dia 26 de fevereiro de 1999, quase 40 anos depois. Arinho entra na Redação da Folha, na Rua Piauí (área central). Logo depois chega Zeferino, goleiro do Londrina naquela histórica partida. Arinho, muitos quilos acima do tempo de boleiro, chega rindo. Zeferino, outro gozador de mão cheia, cabelos brancos, já entra fustigando: ‘‘Ô, Gancho, o que você está fazendo aqui?’’ Zeferino não sabia que o papo seria entre os dois, apenas acompanhado pela reportagem. Curiosamente, como naquele histórico jogo, o Londrina havia enfrentado o Arapongas na rodada anterior.
Paulo Wolfgang40 ANOS DEPOIS...O goleiro Zeferino (E) e o lateral Arinho posam no mesmo VGD em que se ‘pegaram’ 40 anos atrás: jornal dava conta de um jogo bem disputado no qual a Portuguesa merecia melhor sorteVoltando no tempo, a Portuguesa tem uma falta perigosa para cobrar. Em desvantagem no placar, Benê capricha mais do que o normal. A bola passa pela barreira e pelo goleiro Zeferino. Mas, para desespero do jogador e da torcida lusa, a bola choca-se contra o travessão e não entra.
Zeferino lembra disso, olha para o Arinho e diz que o dia era de sorte dele. ‘‘Depois a Portuguesa acertou meu travessão outra vez. Senti que o dia era do Londrina e não ia adiantar nada a Portuguesa correr como correu atrás do empate’’, conta o goleiro, que veio do Corinthians, em 57, e depois passou por São Bento, Barretos, Ponte Preta, Olímpia, Coritiba, Atlético Paranaense e novamente, em 69, outra vez no Tubarão, para encerrar a carreira em 75. Hoje ele faz parte da comissão técnica das categorias de base do LEC.
Arinho reconhece: ‘‘Na realidade o dia não era nosso. Tomamos um gol bobo e deixamos de marcar em algumas boas oportunidades. A gente tinha certeza daquela vitória, mesmo depois que tomamos o gol’’, explica o jogador, que veio do Comercial de Ribeirão Preto (SP) ainda juvenil e que depois jogou no Londrina, Mandaguari, Jandaia, Paranavaí, Comercial de Cornélio Procópio, Avarense e Jabaquara, ‘‘para não ficar muito atrás do Zeferino’’, brincou.
O árbitro Osvaldo dos Santos não teve uma boa atuação. Curiosamente ele havia apitado o jogo anterior em que o Londrina venceu o Arapongas. Osvaldo errou bastante no clássico londrinense, conta a Folha na matéria do jogo, edição do dia 28. O texto fala de vários erros do apitador, que acabaram prejudicando mais a Portuguesa.
Arinho explica que o resultado até seria normal, porque ‘‘profissionalmente o Londrina tinha mais tradição que a Portuguesa. Nossa equipe era muito boa. Levamos muito azar naquele jogo e em outros, tanto que nossa campanha não foi muito boa no primeiro ano. Mas demos um suor no Londrina’’.
O clima para aquele derby estava muito ‘quente’. Floreal Garro, treinador do ‘Caçula Gigante’, pediu que a diretoria concentrasse o time no Hotel Berlim, na esquina da Rio de Janeiro com a Benjamim Constant. A Lusa se instalou no Hotel Lisboa, em Cambé. Altas apostas foram feitas - grande parte delas de torcedores do Londrina dando até quatro gols de ‘lambuja’.
‘‘Para nós, jogadores, o clima de expectativa era muito grande. A sensação era de estar num jogo do Corinthians contra o Santos, no Pacaembu. Era de tremer. Mas para nós a situação era diferente da que tinham os torcedores. Sem clima de favoritismo, porque sabíamos que a Portuguesa tinha uma boa equipe’’, conta Zeferino.
‘‘Na concentração da Portuguesa, também havia muito respeito em relação ao Londrina. Tínhamos um compromisso de vencer o clássico para iniciar uma recuperação no campeonato. Chegamos perto, mas, como disse, o dia era do Londrina, apesar das chances que tivemos para ganhar’’, conta Arinho.
Na última sexta-feira, antes de seguir para o VGD para fazer uma foto juntos, Zeferino contou ainda que aquela vitória rendeu um excelente bicho. ‘‘Lembro que no jogo seguinte os torcedores que ganharam as apostas nos ofereciam dinheiro pelo alambrado. Eram notas grandes que até dificultavam passar pelo arame’’, brinca Zeferino, que queria pegar grana das arquibancadas e do lado aposto, ‘‘mas aí não dava, n钒.
Aureo Paganucci, o Arinho, 60 anos, hoje trabalhando na loja Móveis Brasília, na rua Benjamin Constant, alguns anos depois foi jogar no Londrina, onde ganhou o apelido de Gancho. ‘‘O time da Portuguesa da época hoje criaria muitas dificuldades na Série A-1 do Paraná. Era uma equipe bem montada e de grandes jogadores’’, diz Zeferino Pasquini, 62 anos. Arinho concorda e devolve o confete. ‘‘Mas não era só a Portuguesa que tinha um time bom. O Londrina era forte, tinha ótimos jogadores e que hoje poderia até ser campeão paranaense.’’


O DERBY DE 59

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