'Zé do Lenço', 90 anos, goleiro
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de fevereiro de 2012
Wilhan Santin <br> Especial para a FOLHA 
José Soares Neto já beirava os 60 anos de idade e tinha uma grande história de vida para contar quando começou a ter tempo para jogar futebol. Brincando com os amigos descobriu que levava jeito para goleiro. Logo no primeiro campeonato que disputou, no Grêmio Londrinense, ficou com o troféu de arqueiro menos vazado. Daí em diante, compensaria a entrada tardia no esporte chegando aos 90 anos firme debaixo das três traves dos campos de futebol suíço; deixando claro que não faz apenas figuração. ''Zé do Lenço'', o camisa 1 do clube dos amigos ''Bondbola'', defende para valer.
A vitalidade, raça e disciplina do goleiro, que mantém a saúde em dia, explica-se com a saga do mesmo, narrada por ele em quatro horas de conversa com a FOLHA.
Soares Neto entrou para as fileiras do Exército Brasileiro depois de ser aprendiz de farmácia. Achava a farda verde-oliva interessante. Soldado que não gostava de superiores arrogantes, vez ou outro desrespeitava a hierarquia, indo parar no xadrez do quartel do 4º Regimento de Infantaria, em Osasco-SP. Como ''prêmio'' pela indisciplina, viu seu nome entre os 40 que deviam completar o contingente do 6º Regimento de Infantaria, de Caçapava-RJ, para lutar na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Sem nunca ter dado um tiro com arma de fogo, embarcou para a Itália, integrando o primeiro escalão de pracinhas brasileiros, desembarcando em Nápoles em julho de 1944.
Morteiro
Durante um ano, subordinado ao 5º Exército dos Estados Unidos, andou por aquele país com a missão de expulsar os alemães. Alvejou e foi alvo. Durante quase 30 dias ficou em hospital militar. Foi atingido na cabeça por um estilhaço de morteiro. Recuperado, voltou para a linha de frente, porém nunca mais teria a audição perfeita. O ouvido esquerdo foi afetado. ''Tudo aquilo era tão estúpido e cruel, que o sentimento entre todos na linha de frente era a certeza de que, mais cedo ou mais tarde, acabariam atingidos. Tínhamos apenas uma pequena esperança de permanecermos vivos'', comenta o pracinha. ''Mas o pior estava por vir...'', completa, com jeito pensativo.
O pior a que ele se refere é a Tomada de Monte Castelo, o maior feito da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Foram quatro tentativas, enfrentando chuva, neve e a artilharia alemã, que vinha de cima do monte, até chegar à vitória, em 21 de fevereiro de 1945. ''Sabíamos que a guerra estava no fim e que vencer aquela batalha nos deixaria mais perto do sonhado retorno para casa. De fato foi assim, depois daquela luta não disparei mais nenhum tiro até a nossa volta. Que bom seria se ainda hoje todos se lembrassem daquele dia'', destaca o ex-soldado. Na próxima terça-feira completam-se 67 anos da Batalha de Monte Castelo. Morreram lutando na Itália 454 brasileiros. A Segunda Guerra Mundial fez quase 50 milhões de vítimas fatais.
Boleia
Deixando para trás o pesadelo da guerra, ''Zé do Lenço'' deu baixa do Exército assim que voltou ao Brasil. Foi ser taxista em Ourinhos, cidade paulista que faz divisa com o Norte Pioneiro do Paraná. Corria 1948 e na época de safra do café caminhões de todos os cantos passavam por ali com destino a Londrina. Iam ganhar dinheiro fazendo frete até o Porto de Paranaguá. ''Troquei meu táxi por um caminhão Chevrolet 1940, capaz de puxar 70 sacas. Era pequeno demais e não permitia grande lucro. A viagem até Paranaguá era pela Estrada do Cerne, sem asfalto, consumindo quase três dias. Muitas vezes para abastecer o caminhão eu tinha que deixar meu revólver Colt 38 empenhado como garantia para o dono do posto de combustível'', rememora.
Mas a terra vermelha havia de ser generosa também com ''Zé do Lenço''. Aos poucos as coisas foram melhorando, ele trocando de caminhão e a margem de lucro crescendo. Casou há 54 anos com Alaíde. É pai orgulhoso de Rosa e Esmeralda e avô de Thamires e Fernanda, das quais faz questão de citar os nomes.
Contudo, o relativo sossego financeiro que lhe permitiria jogar futebol veio só em 1983. Depois de inúmeras viagens para os comandos do Exército no Rio de Janeiro e Curitiba, enfrentando burocracia e recebendo só informações desencontradas, descobriu que o caminho para a aposentadoria como ex-combatente de guerra estava tão perto, no 30º Batalhão de Infantaria Motorizado, de Apucarana. Começou a receber a pensão com 38 anos de atraso. Para ele, isso não é motivo para amargura.
No campo com os amigos, ''Zé do Lenço'' é só risos. Em tempo, o apelido deve-se ao lenço no pescoço que ele usa desde a juventude, exceto quando veste camisas sem gola, como a de goleiro.
Palmeirense, é fã, logicamente, do recém-aposentado Marcos e de Rogério Ceni. ''Pela dedicação deles aos seus clubes'', justifica. O terceiro na sua lista de ''goleiraços'' é Oberdan Cattani, do Palmeiras das décadas de 1940 e 1950.
Com a bola rolando, nosso personagem não consegue ter outro estilo que não seja o arrojado. Faz de tudo para evitar o gol. Na última semana, fez uma defesa, a queima-roupa, com o peito, de um verdadeiro tiro disparado por um pé cinquenta anos mais jovem que ele. Foi para o hospital sentindo dores. Nenhuma fratura, apenas a recomendação médica de 15 dias sem jogar.
No entanto, sente que é hora de seguir o exemplo de Marcão. O jogo de despedida será o próximo, assim que o departamento médico liberar. Terá todas as honras, uma grande festa depois da partida e uma boa dose de tristeza da turma do ''Bondbola''. Será a aposentadoria do jogador mais exemplar do grupo de 50 amigos.
''Ele é o mais querido da turma. Será nosso eterno sócio'', comenta o industrial Aldenir Ferreira, 64, presidente do grupo. ''O pessoal vai sentir a despedida, mas temos que aceitar e respeitar decisão dele'', complementa Nabor Paulo dos Santos, 73, o segundo mais veterano do ''Bondbola'' e também goleiro.
''Da minha parte, acho que já joguei bastante. Chegar aos 90 fazendo defesas era um sonho que eu tinha. Já o realizei. Agora, ficarei nas arquibancadas'', finaliza ''Zé do Lenço''.


