Alessandro Zanardi dedicou o título da Fórmula Indy ao filho Niccolo, que pode nascer nos próximos dias. Embriagado de champanhe após o quarto lugar no GP de Vancouver, no domingo, o bicampeão estava emocionado e falou do ‘‘lindo momento’’ que atravessa na vida. Mas não escondeu uma ponta de frustração: ‘‘Não estou superfeliz’’, confessou. ‘‘Podia ter saído daqui com a vitória.’’
A perda do primeiro lugar na corrida para o escocês Dario Franchitti ficou atravessada na garganta. Zanardi achava que tinha carro para vencer e não se conformou por não cumprir a tarefa. A rodada na décima volta, quando perseguia Franchitti e Bryan Herta, foi decisiva. Zanardi explicou o incidente com bom humor: ‘‘Deu uma falha no cérebro’’.
O patrão Chip Ganassi se impressionou com o estado de espírito do seu piloto. ‘‘Isso é o que faz deste jovem rapaz um campeão’’, afirmou. ‘‘Ele tem as falhas no cérebro, mas nunca desiste: vem de novo para o ataque e persegue o que quer até a última volta.’’
Foi assim em Vancouver. Mesmo com o título garantido, Zanardi foi atrás de Scott Pruett e Michael Andretti nas cinco voltas finais para conseguir o pódio. Pelo rádio, Ganassi lembrou-lhe: ‘‘Já temos o campeonato, você vai arriscar agora?’’ Zanardi pensou um pouco e respondeu que sim. ‘‘Felizmente, não achei nenhum lugar em que pudesse enfiar o carro’’, riu, comentando a decisão.
O piloto anunciou que manterá a mesma postura agressiva domingo que vem, em Laguna Seca. ‘‘O título não muda em nada minha maneira de dirigir’’, afirmou. ‘‘Quanto mais se ganha, mais se quer ganhar: amanhã, o gosto da vitória é sempre melhor.’’
O segundo título, porém, teve um ligeiro sabor de ressaca. Foi fácil notar nas expressões de Chip Ganassi, dos mecânicos e do próprio Zanardi uma certa tristeza pela decisão do piloto de deixar o time e ir para a Fórmula 1. A festa teve sorrisos, gritos de comemoração e abraços, mas também alguns olhos marejados.
O gesto de carinho que mais impressionou foi o do companheiro de Zanardi. Jimmy Vasser era o maior adversário do italiano no campeonato, mas na chegada se juntou aos mecânicos na mureta dos boxes, para festejar. Carregava na mão uma bandeirinha com os dizeres: ‘‘Zanardi duas vezes campeão’’. Depois, a pedido do parceiro, autografou o seu macacão. A união da dupla de pilotos fez a força do time.
Zanardi deve encontrar um ambiente bem menos amigável na Williams, mas não se preocupa. ‘‘Não posso estar temeroso da nova realidade’’, disse. ‘‘Esta oportunidade não tem comparação com a que eu tive cinco anos atrás’’, completou, referindo-se à época em que sofreu com os carros da Minardi e da Lotus na F-1.
Zanardi pretendia pegar o jatinho de Ganassi para ir a Los Angeles e viajar de volta para a Itália. A mulher Daniella passa por gravidez complicada e pode ter o bebê antes do dia previsto, 28. Zanardi queria aceitar a sugestão de um amigo e dar o nome de Tazio ao ‘‘bambino’’, em homenagem à lenda Tazio Nuvolari, piloto da F-1 nos anos 30. Foi voto vencido e aceitou Niccolo.
Perguntado se deseja que o filho seja piloto, o campeão respondeu que não interferiria na escolha. ‘‘Mas, se ele quiser, tenho boas conexões’’, sorriu. ‘‘E se fosse uma filha, você deixaria ela correr?’’, provocou uma repórter. Zanardi, que perdeu a irmã com 15 anos num acidente de carro, respondeu. ‘‘Se fosse menina, só gostaria que não tivesse meu nariz, porque ia ser muito feia.’’Arquivo FolhaPonta de frustraçãoItaliano Alessandro Zanardi: ‘falha no cérebro’ impede vitóriaAgência Estado

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