O técnico Zagallo reagiu quase com ufanismo à derrota de ontem do Brasil para a Noruega : ‘‘Foi uma derrota rumo ao penta’’, afirmou, apesar de abatido. Ao ouvir referência ao fato de o Brasil nunca ter sido campeão mundial tendo perdido uma partida, disse: ‘‘Em toda a regra há exceção. O penta virá com uma mancha diferente’’. Ele ficou irritado com o que considerou ‘‘desconcentração e relaxamento’’ da equipe. Por isso, pela primeira vez numa partida brasileira na Copa da França, o técnico do time perdedor foi o último a dar entrevista.
Nunca Zagallo havia demorado tanto para começar a ser entrevistado. Ele disse que falou aos jogadores a mesma coisa que aos jornalistas: ‘‘A derrota veio na hora certa, quando podíamos perder. Nos desconcentramos depois do gol, a 7 minutos do fim. Eu falei que, mesmo com vaias, tínhamos que ficar tocando a bola, até eles se abrirem, acabando com o marasmo das linhas de quatro e cinco jogadores só defendendo’’.
Zagallo sustentou a sua opção de não substituir nenhum jogador: ‘‘O que vocês fariam? Tirariam quem e botariam quem? Trocar seis por meia-dúzia? Por que, se eu estava gostando do time?’’ O treinador repetiu várias vezes que as jogadas norueguesas se limitavam a bolas altas, cruzadas sobre área, embora muitas não tenham sido feitas assim, como no primeiro gol da equipe do técnico Egil Olsen.
Num esforço para manter o ‘‘astral elevado’’, Zagallo pronunciou várias frases de efeito. ‘‘Aqui não tem balão nas festas de São João, mas no Brasil tem. A Noruega só jogou bolas para o alto, como prevíamos’’, disse Zagallo, apesar de a partida ter mostrado uma variação muito maior dos ataques noruegueses.
Questionado sobre se queria uma vingança brasileira, por causa da derrota de 4 a 2 num amistoso do ano passado, o técnico respondeu: ‘‘Eu nunca disse isso’’. Na quarta-feira, porém, Zagallo afirmou que Olsen estava ‘‘entalado’’ em sua garganta.
No segundo tempo do jogo de ontem, o brasileiro virou para torcedores noruegueses que estavam perto do banco brasileiro e discutiu com eles. ‘‘Eu não briguei, apenas os gozei, o que é diferente.’’ Zagallo contou ter ‘‘batido papo’’ com Olsen antes da partida. Depois, o procurou para cumprimentá-lo, mas não o encontrou, em meio à festa do adversário que comemorava a classificação para a semifinal.
O treinador brasileiro disse que achou sua equipe melhor do que a oponente. ‘‘O problema é que houve um afunilamento pelo centro, quando deveríamos ter aberto mais a bola pelas laterais. Eu falei isso no intervalo e melhoramos’’.
O que deixou o técnico mais zangado foi o time ter, na sua opinião, sentido as vaias. ‘‘Era para o Dunga tocar para o Júnior Baiano, passando pelo Cafu, pelo Gonçalves, pelo Roberto Carlos. Ora, era para ficar uma sonolência até o fim do jogo.’’
Zagallo não quis falar sobre o Chile, adversário do Brasil nas oitavas-de-final, sábado, em Paris. ‘‘Eu estava ligado na Noruega, só agora vou pensar no Chile.’’ O técnico negou que, no fim da partida, tivesse recordado a derrota para a Nigéria, na semifinal da Olimpíada de Atlanta-96. Como ontem, naquela competição o Brasil perdeu no final, depois de estar vencendo.
O técnico, antes da Copa, dizia esperar que a Seleção chegasse à terceira partida no auge. Foi quando, justamente, perdeu. Num jogo que não valia nada, ‘‘um treino de luxo’’ para Zagallo, o time sofreu o impacto da derrota. ‘‘Mas ela não vai deixar sequelas’’, afirmou o treinador. ‘‘Tivemos uma grande lição, quando o jogo estava ganho. Como ele não valia nada, o subconsciente afetou os jogadores.’’
Como havia antecipado antes, Zagallo reafirmou que o meia defensivo César Sampaio, que estava suspenso, voltará ao time no sábado. O ataque será formado por Ronaldinho e Bebeto, com Denílson ficando no banco. A zaga terá Aldair e Júnior Baiano.

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