Zagallo quer que os jogos durem 120 minutos
Rio de Janeiro - Mário Jorge Lobo Zagallo participou de seis Copas do Mundo, conquistou quatro títulos (1958, 1962, 1970 e 1994) e um vice-campeonato (1998), além de uma quarta colocação (1974). Às vésperas de participar de seu 7º Mundial, aos 74 anos, o coordenador-técnico da seleção brasileira assegurou não estar ''maluco'', mas com a energia ''ligada'' em 220w e com forças para lutar por mais uma inovação no futebol: aumentar a duração das partidas para 120 minutos.
Agência Estado - Para quem já conquistou tantos títulos de Copa do Mundo, o que significa participar de mais uma edição?
Zagallo - É como se eu estivesse começando em 1958. Como se fosse a primeira vez, porque o hexacampeonato representa tanto quanto a conquista inicial. Sou igual a uma pessoa amadora, com espírito tranquilo, que gosta da vida de seleção. Vibro com o verde e amarelo e a ele me dedico.
AE - E um dia pensou que chegaria e se manteria no topo do mundo do futebol?
Zagallo - Desde o início da minha carreira, em 1948, pensei grande. Comecei atuando com a camisa dez. Mas, após três anos no juvenil, percebi que com ela nunca chegaria à seleção brasileira, porque é neste setor onde se concentram os craques do futebol. Então, pensei: vou pela ponta-esquerda! Lá não tem muita gente e é um caminho curto para chegar à seleção. E hoje posso dizer que o pensamento de um garoto de 17 anos deu certo.
AE - Mesmo com os obstáculos o senhor chegou à seleção como jogador e técnico...
Zagallo - As oportunidades quando aparecem na vida você tem que ir de encontro a ela. Sou assim. Às vezes, posso até dar um salto bem maior do que o previsto. E foi o que aconteceu ao aceitar ser técnico da seleção. Esse foi um salto triplo, quádruplo, sei lá (risos).
AE - Como foi o salto? Exigiu muito técnica?
Zagallo - Desde que o cargo ficou vago, achei que seria o técnico porque estava treinando o Botafogo e vinha conquistando. O preparador físico do Brasil era o Admildo Chirol e, o médico, o doutor Lídio Toledo, que trabalhavam comigo no time. Até que foi escolhido o João Saldanha em 1969. Depois, houve problemas. Eles chamaram o Dino Sani, que não aceitou, disse que estava verde. Quando vieram para cima de mim, falei: tô amarelinho, tô maduro para enfrentar isso! Afinal, esperava por aquela oportunidade e, na vida, às vezes, a chance só aparece uma vez.
AE - Muitos torcedores e jornalistas escolheram a seleção de 1970 como a maior de todos os tempos. Até porque, o futebol apresentado em 70 era mais bonito. O atleta podia pegar a bola, pensar, fazer a jogada que o marcador ainda não tinha chegado. Hoje, o Ronaldinho Gaúcho ou o Ronaldo recebem a bola e já há dois ou três zagueiros o cercando.
Zagallo - Não tenha dúvida de que é assim. A época do futebol arte sobrepujando a força foi até 1966. Depois foi-se evoluindo, mas tenho um pensamento diferente em relação a um detalhe. A evolução física foi importante para batermos recordes dentro do atletismo, da natação, para oferecer melhor resistência para os tenistas, só que para o futebol trouxe o confronto, diminuiu o espaço e ele ficou mais feio. Por isso, no futebol do passado, e olha que não sou saudosista, se tinha jogadas de mais alto nível, era mais tranquilo. Jairzinho, Tostão, Pelé, Rivelino, Gérson, não eram de marcar. Ocupavam espaços. Eles não eram marcadores e nós demos uma aula ao mundo com essa seleção. Aula de beleza e técnica.
AE - E essa mudança não te incomoda?
Zagallo - Sim. O que me incomoda muito é o tal de: vamos marcar, não deixa jogar. Isso me perturba porque o meu pensamento é ao contrário. Não quero faltas. Quero jogar, ver jogo.
AE - Então, como resolver este problema?
Zagallo - Antes de mais nada, não estou maluco e minha cabeça está em dia. Mas o problema é que jogamos 60 minutos. É tanta falta, tanto lateral, médico entrando para atender atleta machucado, que, ao final, não se joga os 90 minutos. Por isso, defendo que se acrescente meia hora para se chegar a 120 minutos, porque assim ocorreria o desgaste físico, iríamos ter espaços e assistiríamos a mais futebol. A técnica iria voltar a comandar e acho que essa idéia pode ir para frente.
AE - Como achar uma maneira de incentivar atletas que têm tudo na vida...
Zagallo - São ricos, não precisam de nada mais, mas têm a alma amadora para vestir a verde-amarela. E para eles isso é fantástico.
AE - O senhor percebe esse sentimento neles? Por que, em algumas partidas, muitos atletas da seleção dão a impressão de estarem em campo por obrigação?
Zagallo - Sinto e se estou falando é porque eles também sentem. E é verdadeiro o que estou dizendo. Fico arrepiado e os atletas também. Somos profissionais, mas amadores de alma quando vestimos essa camisa verde e amarela.
AE - E depois de tanto tempo ficou alguma mágoa do futebol?
Zagallo - Não. Talvez, a única foi na Olimpíada (de Atlanta, em 1996).
AE - Final da Copa da Alemanha, Brasil campeão ou não, o Zagallo continua ou encerra a carreira?
Zagallo - Enquanto estiver com saúde não penso em parar. Se me quiserem, continuarei minha trajetória. Fiquei mais magro, perdi uns quilinhos mas minha energia veio redobrada. Não estou com 110w, mas com 220w.





