O ex-técnico da Seleção Brasileira, Zagallo, desafiou ontem deputados da CPI da CBF/Nike, durante seu depoimento na comissão, a mostrar ‘‘quem tem moral’’. O depoimento, no entanto, pouco acrescentou ao que já se sabia sobre a escalação de Ronaldo na final da Copa da França. Zagallo, que negou ingerência da Nike sobre seu trabalho, disse que tomou a decisão de colocar o atacante com a comissão técnica.
Uma discussão com gritos e cortes de som de microfone marcou o depoimento do treinador. O bate-boca foi iniciado pelo próprio técnico. No começo de suas declarações, ele leu um trecho de uma reportagem do jornal ‘‘Lance’’ na qual Aldo Rebelo (PC do B-SP), presidente da CPI, diz que os técnicos Zagallo e Wanderley Luxemburgo mandaram cartas a ele pedindo que a comissão não fosse instaurada.
‘‘Há verdade no que está aqui?’’, perguntou Zagallo, olhando para Rebelo. ‘‘Vossa Excelência está aqui na condição de depoente, não de inquiridor’’, respondeu o deputado.
Zagallo se irritou e insistiu na resposta. Rebelo manteve sua negativa e perguntou se o técnico tinha encerrado sua explanação inicial. O deputado, em seguida, disse que havia recebido ‘‘uma carta’’ do técnico. ‘‘A única função desta carta era tentar impedir a criação da CPI’’, afirmou.
Zagallo interrompeu Rebelo. ‘‘Eu continuo negando, quero ver a carta. Vamos ver quem tem moral aqui dentro. Eu não sou desonesto’’, gritou. Rebelo tirou o som do microfone do técnico.
‘‘Nós não vamos levar grito de Zagallo nem de ninguém aqui dentro. Nós temos moral sim’’, disse Eduardo Campos (PSB-PE). ‘‘Ele não está à beira de um campo de futebol, onde possa gritar’’, completou Dr. Rosinha (PT-PR).
Só então o problema foi esclarecido. Em março de 1999, a CBF enviou a deputados uma carta atacando a criação da CPI, que já estava sendo discutida. No documento anexou declarações de Zagallo e de Luxemburgo. Nas declarações, os dois dizem especificamente que a Nike nunca interferiu na escalação de jogadores da seleção nem na escolha dos adversários em amistosos.
O técnico, que atualmente treina o Flamengo, apesar de reiterar o que assinou na declaração, admitiu que houve amistosos que não foram requisitados por ele. Pelo contrato da CBF com a Nike, a seleção precisava realizar, por temporada, cinco amistosos com todos os lucros revertidos para a empresa . Esse número foi mais tarde reduzido para dois jogos anuais, e a multinacional ganhou o direito de abater até US$ 14,5 milhões se a CBF não cumprir um número mínimo de partidas.
Zagallo disse também que, se dependesse só de sua vontade, os jogadores da seleção não teriam ido a uma festa promovida pela Nike durante a Copa da França, em 1998. Ele afirmou que o evento não atrapalhou o treino dos jogadores.
Durante o depoimento na CPI da Câmara, os dois médicos que integraram a comissão técnica da seleção brasileira na Copa de 98, Lidio Toledo e Joaquim da Matta, divergiram sobre o diagnóstico do atacante Ronaldinho. Para da Matta, o jogador sofreu uma crise convulsiva. Já Lidio afirmou que o quadro de convulsão não se concretizou. ‘‘A meu ver, Ronaldinho teve uma distonia neurovegetativa’’, afirmou Toledo, que responsabilizou o colega Joaquim da Matta pela liberação de Ronaldinho para a partida contra a França.

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