Winckler corre mundo e pára na China
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segunda-feira, 30 de dezembro de 1996
Flávio Campos 
Pode não ser um negócio da China, mas jogar como centroavante do Guangzhou Apollo FC, vice-campeão chinês, foi a opção do londrinense José Emerson Winckler, 25 anos, que vem correndo o mundo atrás da grande chance no futebol. Uma história iniciada no time juvenil do Londrina Esporte Clube e até hoje desconhecida da maioria dos londrinenses. Afinal, Winckler tinha apenas 14 anos quando começou a treinar com os técnicos Vilela e Britânia. Apesar da persistência - ficou três anos nas categorias menores do Tubarão - ele não conseguiu se firmar. A primeira boa chance veio no Joinville, com a participação na conquista do título catarinense de juniores e alguns jogos no time de cima. E foi então que o sonho de jogar no exterior virou a cabeça deste garoto ambicioso, que só queria ser um bom jogador de futebol.
Áustria e Holanda O empresário Franz Masser foi quem levou Winckler para o futebol da Áustria. Mas deu tudo errado, porque Masser fez a inscrição num time da Segunda Divisão Austríaca sem a permissão da CBF. A proibição foi inevitável, e Winckler teve que trabalhar durante quatro meses na Áustria para arranjar dinheiro e se mudar para a Holanda. Tinha então 19 anos. Um amigo brasileiro lhe arranjou um teste e aí apareceu o primeiro interessado: o FC Den Haag, que pouco depois subiu da Segunda para a Primeira Divisão Holandesa. Com a participação de Winckler. Na Holanda só se ganha dinheiro nos times grandes. E assim mesmo o governo fica com 60 por cento do que se ganha, explica.
Portugal Apesar das dificuldades, a Europa continuou sendo o grande sonho e, em 1992, surgiu para Winckler a chance de disputar o Campeonato Português, pelo Penafiel. Brasileiro pouco conhecido é perseguido no futebol português. Eles não aceitam a gente. E, para piorar as coisas, naquele tempo havia excesso de brasileiros por lá, recorda Winckler que, mesmo assim, ainda jogou pelo Portimonense e pelo Esperança, de Lagos.
Bem que Winckler tentou mostrar seu futebol em Londrina. E foi por isso que, em 1994, ele aceitou treinar por três semanas no Tubarão, com Walmir Louruz como treinador. O presidente era Iran Campos. Ele me convidou para treinar e não avisou o treinador. Acabei sendo prejudicado e não ficando, lamenta.
O jeito foi retornar a Portugal. Depois de quatro meses parado, uma nova chance no Esperança, de Lagos. Acabei conseguindo um certo prestígio por lá, ressalta Winckler.
China Sem o sucesso esperado na Europa, o futebolista londrinense mudou seus planos quando um empresário de Macau lhe fez um convite para jogar na China. Sem medo de ser feliz, lá se foi Winckler. Sozinho, enfrentou um período de adaptação extremamente difícil. O idioma inglês, que desenvolvera na Europa, foi o que facilitou um pouco as coisas. O pior era a comida: Lá se come cobra, cachorro, tudo o que é bicho. Não é fácil. Em dois meses Winckler se decidiu: mandou buscar a noiva Lucinéia Marques.
O time de Winckler é de Guangzhou (Cantão), uma cidade de 10 milhões de habitantes, localizada no sul da China, e que tem três times de futebol. O Guangzhou Apollo FC tem três jogadores da Seleção Chinesa. Além de Winckler jogam na equipe outros dois estrangeiros: um iugoslavo e um português. Eles pagam salários de US$ 5 a 10 mil. Não é um grande negócio, mas o time faz muitos amistosos internacionais. Joguei contra o Nápoles, o Benfica, o Estrela Vermelha e a Seleção da Ucrânia. Numa das nossas viagens, encontrei o Alaor, que foi à China para um amistoso que o seu time (o Sansung, da Coréia) fez por lá, conta Winckler.
Em férias no Brasil, José Emerson Winckler curte os amigos em Londrina e fez questão de vir à Redação da Folha, contar a sua história. Em janeiro, ele retorna à Ásia, mais uma vez cheio de esperanças: Tenho que estar bem preparado para enfrentar o teste que é aplicado em todos os jogadores do futebol chinês, independente de clube. Todos se reúnem num quartel e passam por esta verdadeira prova de fogo, para saber se estão aptos para enfrentar a nova temporada.


