Santos - Um funcionário do CT Rei Pelé se aproxima e interrompe a entrevista. Pede para tirar uma foto com Giovanni. Registrado o momento, ele se despede: ''Valeu , Giovanni. Obrigado por tudo. Você é gênio do futebol!''
G10 sorri sem jeito. Não sabe o que responder, apenas agradece. ''O pessoal aqui em Santos é muito simpático.''
Aos 38 anos, o camisa 10 vive o sonho de ter voltado à Vila Belmiro - um desejo que embalou por quatro anos, desde que foi dispensado em janeiro de 2006. E ele confessa: se o Peixe não tivesse aparecido em seu caminho, já estaria aposentado.
Dono de um jeito acanhado, Giovanni sabe que é idolatrado pela torcida do Santos, mas não consegue explicar o motivo. Apenas tem conhecimento de como retribuir: conquistando, enfim, um título pelo clube.
Agência Estado - Você é gênio, Giovanni?
Giovanni - Que nada! Estou longe disso. Mas é bom saber que você marcou de alguma forma a vida das pessoas.
AE - Você jamais escondeu que sonhava voltar ao Santos. Imaginava que seria aos 38 anos?
Giovanni - De jeito nenhum. Pensava que quando saí do Olympiakos (em 2005), jogaria no Santos uns dois anos e encerraria a carreira. É um milagre estar aqui hoje. Se eu não tivesse voltado para o Santos neste primeiro semestre, com certeza estaria aposentado. Pensando bem, é um milagre mesmo.
AE - Em 2005, era para o time ter um ataque com você, Deivid e Robinho, que agora está de volta. E tem o Neymar...
Giovanni - É uma coisa predestinada. Onde passei, sempre conquistei títulos. Só falta pelo Santos. Em três anos no Barcelona, ganhei dois Campeonatos Espanhóis. No Olympiakos, fiquei seis anos e ganhei cinco vezes a Liga. Quando voltei para a Vila em 2005, o clima não era bom no elenco. O time já estava se desfazendo. Agora é diferente, o Santos manteve uma base. Tem alguma coisa de muito especial guardada para mim. E com a chegada do Robinho... Ele não veio para somar. Veio para multiplicar.
AE - Qual a diferença entre jogar no Santos hoje em dia e em 1994, quando chegou ao clube pela primeira vez?
Giovanni - Muito diferente. Os jogadores estão mais maduros. Hoje um menino de 15 ou 16 anos já tem certa experiência. A gente ia no vestiário, via o pessoal veterano e ficava acanhado. Isso terminou. Todo mundo é igual e quer mostrar dentro de campo, com maturidade.
AE - Você tem uma imagem de pessoa tímida, bastante reservada...
Giovanni - Sempre fui, até dentro de casa.
AE - Essa timidez em algum momento te prejudicou?
Giovanni - Todo mundo sempre me tratou bem por onde passei. Deus me fez assim e não vou fugir do que sou. Sempre fui um cara muito calado, não só dentro mas também fora do campo. Acho que isso me faz ganhar a simpatia das pessoas. O jogador quando pega moral ganha espaço, quer falar e aparecer mais. É normal. Eu não sou assim. Sempre preferi ter boa relação com todos. Mas tem o lado ruim. Você paga por isso algumas vezes.
AE - Por que esse temperamento pode ser uma coisa ruim?
Giovanni - Se eu fosse mais de falar, de marketing, poderia chegar muito mais longe do que cheguei. Conformei-me com certas situações em que poderia ter dito o que pensava. Mas nunca questionei por estar no banco, não jogar. Isso me prejudicou.
AE - Um exemplo disso é a Copa de 1998 (Giovanni foi substituído no intervalo da estreia contra a Escócia e não jogou mais no Mundial)?
Giovanni - É. Quem não chora, não mama. Sempre aceitei fácil as coisas. Mesmo no Olympiakos, onde tinha status de astro, nunca fui de questionar e poderia ter conseguido muito mais coisas para mim.
AE - Toda entrevista que você dá, sempre tem a pergunta sobre aquele jogo contra o Fluminense de 1995... (quando o Santos venceu por 5 a 2 na semifinal do Brasileirão)
Giovanni - Não só a imprensa. A torcida quando me encontra é assim.
AE - Mas já cansou de falar disso?
Giovanni - Ah, não. Aquele foi um momento mágico da minha carreira e do Santos. Prova de que mesmo não sendo campeão, aquele jogo está na história do clube e jamais vai sair. Se você perguntar para o torcedor qual o jogo com mais emoção que ele viu, muitos vão citar aquele.
AE - Deixou o Santos em 1996 para jogar no Barcelona, onde ficou três anos. Como acha que foi sua passagem pela Espanha?
Giovanni - De 1 a 10, minha passagem foi nota 9. Ganhamos dois Campeonatos Espanhóis, duas Copas do Rei e uma Copa da Uefa.
AE - E por que saiu?
Giovanni - Saí por causa do (técnico Louis) Van Gaal. Antes de chegar a legião de jogadores holandeses, ele me tratava como filho. Na temporada 1997-1998 joguei muito bem. Antes ele queria me mandar para o São Paulo em troca do Denílson. Deu errado e virei titular. No campeonato seguinte, chegaram vários holandeses e ele me colocou de lado. Foi quando me transferi para a Grécia.
AE - Conhece algum jogador que seja tão lembrado pelas belas jogadas quanto por um ato de rebeldia (em 2005, Giovanni deu um bico na bola para a arquibancada contra o Corinthians. A torcida invadiu campo e o jogo foi interrompido)?
Giovanni - Difícil. Mas sabe que em Barcelona sempre lembram do jogo em que dei uma banana para a torcida do Real Madrid dentro do Bernabéu?
AE - Mas gestos de rebeldia não combinam com sua personalidade.
Giovanni - Sim, é verdade. Mas era algo que todo mundo gostaria de fazer e não teve chance. Era o que o torcedor do Santos ou do Barcelona queria fazer naquele momento. Um ato impensado pode marcar. E marcou.
AE - Quando você parar, como acha que a torcida do Santos vai lembrar do Giovanni?
Giovanni - Ah, não sei. Precisa perguntar a eles. Acho que como alguém que resgatou uma geração de torcedores. Resgatou o que faltava no Santos, que era decidir e fazer jogos memoráveis.
AE - Mas ainda falta um título.
Giovanni - Falta. Mas vai vir. (Alex Sabino/Agência Estado)

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