Vôo Duplo de Parapente
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 29 de março de 2001
Andrés Baró De Jaraguá do Sul, SC 
Sob o comando do projetista suíço, André Rotot, da Sol Paragliders, decolávamos da rampa do Pico da Antena, a 870 metros de altitude, sobre um vale verde de mata fechada. Após três tentativas frustradas, causadas pela baixa pressão do vento, conseguíamos finalmente dar seqüência à corrida da decolagem e lançar-nos no vazio... graças à uma rajadinha de vento mais forte. O parapente duplo exige mais cuidados que um normal. Com o peso de duas pessoas é necessário que o vento seja um pouco mais constante, explicava André, com seu arranhado português, ao abortar uma das tentativas.
A primeira providência do piloto, uma vez em vôo, é a de procurar as chamadas térmicas blocos ascendentes de ar quente que carregam urubus, tesoureiros e parapentes às alturas... Caso não encontrássemos as invisíveis correntes, estaríamos confinados a um decepcionante vôo prego, descendo lentamente até o solo.
Aos poucos subíamos com uma térmica, prontamente encontrada pelo experiente suíço. A sensação é única: vamos rodando em espiral para cima motivados pelo frenético bip do variômetro, aparelho que indica a velocidade de ascensão. Quanto mais bipa, mais rápido ganhamos altura. Como estávamos num dia de condições termais inconstantes, ora subíamos, ora descíamos. Nuvens carregadas no horizonte, as conhecidas CBs, anunciavam forte chuva para o fim de tarde.
O visual é fantástico! Vimos as serras de Jaraguá e Corupá desde um ponto de vista exclusivo, do alto, tocando nas nuvens. Os acentuados e bruscos cortes das montanhas da região ficaram ainda mais exóticos com as faces sombreadas que se alcançavam ver lá de cima. Em segundos passeávamos de um pico a outro, planando, com o forte som do vento. De repente, ops! Um solavanco indica que esbarramos em outra térmica: Vamos ver se com esta subimos até aquela nuvem, indicava André, que com as mãos nos batoques (alças que dirigem o parapente), desenhava outra curva no céu em busca do eixo da ascendente.
Essa foi boa! A térmica nos levou até a base de uma nuvem. Você olha para cima: o teto branco de algodão encostando no parapente; abaixo, telhadinhos minúsculos de casas espalhadas pelo campo... Algumas marcas azuis indicavam os contornos de piscinas, à esquerda a cidade inteira de Jaraguá do Sul, e os picos das montanhas ficavam já a umas centenas de metros, lá embaixo... Uma mistura de ansiedade e medo tomaram conta um frio no estômago... O altímetro mostrava já os 1.200 msnm.
Lentamente, continuamos rodando, entrando naquela enorme massa gasosa branca. Estamos entubando! Tudo fica branco e frio, a sensação lembra quando se abre a porta de um freezer e vem aquela névoa fria e seca. Enquanto viajamos pelas entranhas da nuvem, a imagem das verdes montanhas e da cidade no vale vai desaparecendo... Este é o momento mais intenso do parapente, garantia o suíço, sorridente. Mas ressaltou que entubadas em nuvens são proibidas nos dias em que há vários pilotos voando. Um pode se chocar ao outro e se enroscar; a queda é certa. Vale lembrar que em casos como este sempre existe o artifício do para-quedas reserva o salva-vidas do voador.
A experiência de entubar se repetiu por mais três vezes, quando as condições termais começaram a enfraquecer e nos obrigou a pousar, num terreno vizinho à fábrica da Sol.
André Rotot, 35 anos, 14 de parapente, é projetista da Sol Paragliders e conta que começou nos esportes aéreos com o pára-quedismo, migrou para o asa delta e com o advento do parapente em 1986, passou a se dedicar na modalidade, muitas vezes mixando suas antigas paixões: garante que desde um vôo de parapente duplo, com relativa altura, ele se desconecta, curte a queda-livre por extenuantes segundos, e só depois solta o pára-quedas... Adrenalina garantida para uma próxima edição do FOLHA AVENTURA.
Dados do variômetro: altura máxima, 1273 msnm; velocidade de ascensão, 5 m/s (max.); velocidade de descenso: 5 m/s (max.); e tempo de vôo: 55 minutos.


