Vôlei (Bernardo Rezende)



Dispensas e
cortes: trauma!
Se alguém me perguntar qual o pior momento na vida de um técnico, a resposta será: o corte de uma atleta. Ter que dispensar uma jogadora às vésperas de uma competição é uma experiência angustiante e muitas vezes traumática. É como se nós, técnicos, tivéssemos o direito de influir na vida das pessoas, destruir expectativas, frustrar seus sonhos. Por mais profissional e frio que se tente ser, a nossa é uma atividade onde se cria uma ligação pessoal muito forte, onde a convivência entre as pessoas é muito grande e, portanto, torna muito mais difícil a dispensa de alguém.
Eu, como atleta, vivi essa experiência (a de ser cortado) algumas vezes e confesso que em ao menos uma delas me senti o mais injustiçado dos seres humanos. Cheguei a pensar em parar de jogar, largar tudo... Mas tudo na vida é fonte de aprendizado e tentei sempre trabalhar ainda mais para não sentir aquele gosto amargo de não poder entrar na equipe no principal momento da vida de um atleta: a competição.
Há tantos aspectos a ser ponderados quando se deve cortar uma atleta de uma equipe: técnica, tática, físico, comportamental, enfim, tudo que possa ter influência sobre a atuação do time e sobre o ambiente que existe no grupo. Eu, particularmente, sofro muito pois sei que farei outras pessoas sofrerem e geralmente são pessoas maravilhosas e que não merecem este tipo de decepção, mas, infelizmente, alguém tem que tomar esse tipo de decisão e esse alguém é o técnico, eu.
Além desses cortes, que acontecem sempre em seleções brasileiras, há ainda as dispensas que têm que ser feitas nos clubes, quer por questões técnicas, orçamentárias, enfim modificação no elenco que são necessárias ano a ano.
Este ano, na equipe do Rexona-Paraná, três jogadoras não continuarão conosco: Kika, Shily e a holandesa Erna. Quer por que são número três do ‘‘ranking’’, quer por questões orçamentárias, tivemos que modificar a equipe e sinto muito a falta dessas três amigas, que este ano não estarão conosco. Jogadoras que atravessaram conosco a difícil caminhada em busca do título, treinamentos exaustivos, viagens, tensões, enfim, tantos momentos que ficaram gravados em nossa memória. E com a Kika ainda tínhamos a Cacá, sua filhinha, que era sempre um motivo de descontração, carinho e alegria para todos, mesmo quando se agarrava às pernas da mãe e não queria deixar a quadra de forma alguma.
Uma história interessante para exemplificar a importância dessas amigas no grupo: quando estávamos nas finais contra a equipe da Nestlé, em desvantagem de uma partida, na manhã da segunda partida em Curitiba, a Kika reuniu todos no meio da quadra e leu um pequeno texto que ela havia preparado para nós. Foi uma força e uma emoção incrível em todos nós; e ainda na manhã da última partida em Jundiaí ela mais uma vez reuniu todos e leu uma carta que nossos companheiros de trabalho do Rexona haviam nos escrito e todos chegamos às lágrimas.
Sempre que eu olhava para a área reservada às atletas suplentes, via a Kika se movimentando e extremamente atenta a tudo e pronta para entrar nos momentos mais quentes da partida.
Vou sentir falta de olhar para o banco e não vê-la saltitante. De qualquer maneira gostaria de agradecer em meu nome e de toda a torcida Rexona-Paraná a Kika, Shily e Erna, por tudo e tanto que nos deram e pela amizade que, tenho certeza, será para sempre.
Bernardo Rezende, o Bernardinho, é coordenador do Centro de Excelência de Vôlei do Paraná e técnico do Rexona e da Seleção Brasileira feminina de vôlei. Escreve sempre às quintas-feiras na Folha

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