VOANDO ALTO NOS CAMPOS DE SÃO LUIS DO PURUNÃ
A asa esquerda aponta para o verde do campo, 450 metros abaixo, a outra para o ceú azul, estamos rodando, rodando em círculos a uma velocidade de 70 km/h subindo ao mísero metro por segundo, mas enfim, subindo... Opa! Um solavanco indica o aumento da força termal. Agora a aeronave eleva-se a 4 m/s. O experiente piloto Marcio Grise, sentado atrás de mim, comanda o planador tchecoeslovaco Blanik II L13 biplace na ponta dos dedos tentando aproveitar cada centímetro desta forte térmica. Há poucos instantes, a baixa altura que nos encontrávamos decepcionava. Já nos preparávamos para pousar, quando de repente fomos surpreendidos por esse bloco de ar quente. Resultado: ganhamos mil metros, chegando em minutos à marca dos 1.500 m de altura! Sorte a minha como acompanhante, certamente um batismo de vôo duplo que não acontece todos os dias... Luiz César Passobom, piloto experiente em acrobacias aéreas, definiu o dia como um dos melhores do ano.
O visual do alto é fascinante! As imponentes araucárias transformam-se em miniaturas típicas de maquetes, o rio Iguaçú ao longe não passa de um filete de água e os desníveis da topografia do campo de São Luis do Purunã (a 50 km de Curitiba) se diferenciam pelas diferentes tonalidades de verde. A visibilidade esteve perto dos 80 quilômetros. O jovem piloto Lucas Stange (19) relata: Em dias clássicos, pode-se apreciar com nitidez a Serra do Mar, localizada a mais de 100 km. Mas o que conta mesmo é o estado termal o dia.
O Vôo Térmico Cada vôo é uma aventura diferente, explica Grise referindo-se à batalha que o piloto enfrenta para conseguir cada metro de altura. O vôo térmico exige muita sensibilidade e experiência dos aviadores. Como o planador é uma aeronave sem motor, vale-se do artifício das correntes ascendentes de ar (térmicas) para que o vôo seja sustentado e ainda ganhe altura. Algumas térmicas exercem uma enorme força que chega até levantar uma aeronave como esta, que beira os 400 quilos. Dentro da cabine, o clima é de euforia quando o reloginho do variômetro aponta um, dois, quatro metros por segundo (velocidade em que o planador sobe). Atingimos a base da nuvem!, exclamava Grise com sorriso estampado na face. Para os aventureiros de primeira viagem, o visual dá um frio na barriga, mal de altura... Impressiona! É como se tamanho algodão estivesse ao alcance da mão...
As térmicas se formam pelo calor que o solo passa para o ar, que aquecido, sobe. A melhor hora é apos o meio-dia quando sol a pino esquenta a valer o chão, o que provoca boas situaões termais. Os urubus aproveitam essas correntes para elevar-se sem esforço para melhor avistar suas presas. Muitas vezes, surpreendem-se com o seu aroma predileto (cheiro de animal morto) que as térmicas carregam para as alturas. O processo consiste num divertido meio de subsistência do urubu e uma excelente referência para os adeptos do vôo livre: os pilotos procuram seguir estas aves afim de alcançar os preciosos blocos de ar quente. Costuma-se apontar os urubus como birutas naturais.
A hora da verdade Dois momentos intensificaram de forma alucinante a experiência. Foram as manobras de reversão dadas no início do vôo a uns 600 m de altura e no final perto da pista de aterrissagem: o piloto Grise puxa o manche para si e faz o nariz do planador apontar para cima, subindo, subindo... o barulho do vento aumenta, uma enorme pressão cola o corpo na aeronave a impressão que se tem é que o traseiro molda um novo design na aeronave... Prendo a respiração, o avião gira, olho para cima, vaquinhas pastando no campo, à frente o horizonte invertido... A pressão some e volta quando o Blanik completa o giro iniciando um mergulho interminável, alcançamos a marca de 180 Km/h... Meu amigo! Todas as suas energias são canalizadas para o seu pescoço: o berro por todos que estavam na escuta no rádio. Antes de aterrissar, Grise deu um show, me testando em várias reversões, uma após a outra. Saí do avião com os olhos girando...
As acrobacias foram feitas atendendo o pedido de nossa equipe. Pode-se optar por um vôo duplo tranquilo sentindo o delicioso planeio da aeronave, experimentando em ocasiões assumir o comando do planador, numa experiência única. Por meio de dois pedais e uma alavanca giramos o avião para a esquerda e para a direita, apontamos o nariz para baixo ou para cima. A natural falta de confiança do iniciante nos comandos, eleva a adrenalina às nuvens!
Espírito coletivo
Os pilotos do Aeroclube de Planadores de Balsa Nova formam uma verdadeira família, onde todos trabalham de forma séria e solidária. O espírito coletivo é necessário e presente em todas as atividades do aeroclube: desde o trabalho nos hangares, até ações imprescindíveis para o vôo. Para que o planador voe é preciso que um outro avião a motor o carregue para cima através de uma corda, torna-se imprescindível o revezamento entre os pilotos para que um puxe o outro até as nuvens. Uma vez na altura desejada, o planador desconecta-se do avião e experimenta o vôo livre.
Outro exemplo de cooperação no aeroclube acontece na instrução para iniciantes. O curso é dado por instrutores voluntários qualificados e o dinheiro arrecadado é destinado para manutenção das aeronaves e infraestrutura do clube. Todas os planadores pertencem ao clube e podem ser usados livremente pelos seus sócios sempre que estejam qualificados para voar os diferentes modelos. Os preços das aulas práticas e teóricas de planador são super acessíveis.
Uma nova geração de pilotos está sendo formada em Balsa Nova. Esta realidade aliada a excelente infra-estrutura do aeroclube trazem previsões otimistas entre os pilotos do Paraná: A expectativa para o futuro é muito boa, já existem projetos de planadores prontos que encontram-se a espera de materiais desenvolvidos por novas tecnologias, explica o instrutor Mathias Gohringer, que, ainda, ressalta a necessidade de que as pessoas se aproximem ao esporte para conhecer e experimentar a sensação de um vôo planado, seguro e, seguramente, inesquecível.





