VISÃO DE JOGO - Calderano contra todos
Somos talentosos na essência, mas pobres na política de desenvolvimento
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 15 de setembro de 2025
Somos talentosos na essência, mas pobres na política de desenvolvimento
Por Julio Oliveira 

A bolha do país do futebol faz a gente esquecer de tantos outros esportes que estão aí no dia a dia. O time do coração de cada brasileiro ocupa um espaço que só permite lembrar de outros atletas em épocas de Jogos Olímpicos, e esquecer que no intervalo de quatro anos existe o“ciclo olímpico” com mundiais preparatórios e que já são, praticamente, várias Olimpíadas. E fora desta bolha do futebol, espaço em mídia, patrocínio e visibilidade são proporcionais ao número de praticantes em um país.
É uma conta simples. Tênis de mesa no Brasil, por exemplo, é praticado em clubes e associações e campeonatos restritos. Se não há popularização, não há crescimento em atletas e investimentos e se torna uma modalidade que “briga” pela sobrevivência por aqui. São as exceções, que se tornam ícones mundiais e fazem essa transformação.
Hugo Calderano é top 5 do mundo. Sim, um dos cinco melhores do MUNDO no tênis de mesa e o primeiro atleta da América Latina a alcançar o top 10. E um resultado desse não se constrói em dois ou três campeonatos, são mais de 15 anos acreditando em si para provar que o país do futebol tem outros gênios. Só este ano foi campeão da Copa do Mundo e vice-campeão mundial, e deve voltar a terceira posição no ranking com o vice-campeonato deste domingo (14) em torneio na China.
Somos talentosos na essência, mas pobres na política de desenvolvimento. Esporte, antes de investimento, precisa de política esportiva, planejamento e consciência de que a continuidade e tempo é que revelam resultados. Calderano está aí, mostrando que é possível vencer os melhores do mundo sendo de um país sem tradição no esporte, e por que não aproveitar para olhar para o tênis de mesa e descobrir e incentivar outros “Calderanos”?
A China, que tem os dois primeiros colocados no ranking e que este ano ambos perderam para Calderano, conhece muito mais o mesa-tenista brasileiro que seu próprio país. Vivemos polarizando debates, mas não debatemos por inclusões e continuamos dependendo das exceções para mostrar que é possível transformar cenários apenas mudando a cultura política.
Mas como a política só observa sua própria cultura: “Vai, Calderano!
Julio Oliveira é jornalista e locutor esportivo da TV Globo - A opinião do colunista não representa, necessariamente, a da Folha de Londrina


