VISÃO DE JOGO - A bola parada
Em faltas e escanteios os movimentos de ataque e defesa se repetem como num balé ensaiado
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 11 de novembro de 2024
Em faltas e escanteios os movimentos de ataque e defesa se repetem como num balé ensaiado
Por Julio Oliveira 

O futebol, como toda modalidade, é movimento. Se há uma bola, ela precisa sofrer deslocamentos para que o jogo aconteça. Básico. Óbvio. Mas criamos ao longo do tempo o termo que simboliza a antítese deste conceito básico que fala da inércia, mas que se tornou uma das mais poderosas “armas” de muitos times, sem o resultado vir na mesma proporção com que o perigo se anuncia.
“Ter uma bola parada forte” é ser um time que precisa de maior atenção, que é praticamente letal, impõe respeito e requer táticas ousadas para neutralizar essa força. Mas, na prática, em faltas e escanteios os movimentos de ataque e defesa se repetem como num balé ensaiado e que fica eternamente em cartaz.
Dois pontos são fundamentais para lances a partir de jogadas de bola parada: um bom cobrador e um bom cabeceador. Ponto. Só isso. E quem são esses jogadores, hoje, no futebol brasileiro? Comece analisando pelo seu time, se os laterais fazem bons cruzamentos ou se o atacante é cabeceador nato. Arrisco dizer que nenhum lateral dos principais times do país, ao chegar na linha de fundo, acerta 4 de 5 cruzamentos; ou que em cobranças de faltas consegue fazer chegar na segunda trave 3 de 5 levantamentos.
Se a bola parada virou arma, os técnicos não conseguiram treinar bons “atiradores”, mas insistem na jogada inócua. E seguimos vendo bolas que vão e vêm com poucos resultados. Cabecear é uma arte, porque começa com posicionamento e tempo de jogo. Não temos nenhum jogador de área atualmente que amedronta os zagueiros, que exija cuidados individuais. Talvez, Vegetti, do Vasco, esteja acima da média. E só.
Então, para valorizar a bola parada, priorizam-se os jogadores de maior estatura. Zagueiro, na base, com menos de 1,85m não tem futuro. Mas se um garoto chega para fazer teste e tem 1,90 é tratado como joia. A técnica se vê depois.
Infelizmente, muitos técnicos se apegaram à bola parada como alternativa tática, economizando treinamento mais criativos. Cruzar a bola de qualquer lugar do campo para a área não é levar perigo. O levantamento precisa favorecer o atacante, dificultar o zagueiro, e isso pouco acontece. Vamos continuar vendo a bola parada ser tratada como estratégia, e seguiremos vendo esse futebol não surpreender mais ninguém. Afinal, bola parada não é para assustar.
Julio Oliveira é jornalista e locutor esportivo da TV Globo - A opinião do colunista não representa, necessariamente, a da Folha de Londrina


