Vira-casaca
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sábado, 07 de junho de 2014
Felipe Rosa Mendes<br> Agência Estado 
São Paulo - Ele vai realizar o sonho de jogar uma partida de Copa. Mais, uma partida de abertura e logo no país onde nasceu. Tem boas chances de até ser titular no Itaquerão. Mas não defenderá a amarelinha da seleção brasileira. Eduardo da Silva, apesar do nome e sobrenome, vestirá a camisa da Croácia no dia 12 de junho, quando todos os olhos do esporte mundial estarão voltados para o Brasil.
Diante do inusitado da situação, o jogador de 31 anos admite ficar dividido e espera viver um momento "emocional". Não por acaso. Ele tem quase tanto tempo de Europa quanto de Brasil. Saiu do Rio aos 16 anos e já joga no futebol europeu há 15 anos.
Lá naturalizou-se, casou com uma croata e formou família. Destacou-se no Dínamo de Zagreb e foi chamado para a seleção de base da Croácia. Em 2004, passou a ser convocado para a equipe principal, da qual já é o segundo maior goleador da história, atrás apenas de Davor Suker, artilheiro da Copa de 98.
A boa adaptação ao futebol europeu, contudo, deixou marcas. O português não é mais tão fluente. Durante a entrevista, Eduardo da Silva buscava as palavras com um constante "como se fala?" em suas respostas, ao mesmo tempo que não escondia o sotaque carioca.
É mantendo o contato com a família que ele garante a conexão com o Brasil. Sempre que pode, aparece no Rio para visitar mãe e irmão. Tímido, diz gostar do anonimato no Brasil. E, na abertura da Copa, já avisou que vai cantar os dois hinos. E não recusará comemoração, ainda que discreta, ao seu estilo, em caso de gol.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista por telefone que o atacante concedeu à Agência Estado, no início da preparação da Croácia para a Copa.
Como será jogar uma Copa do Mundo em seu país mas defendendo uma seleção diferente, ainda mais em um jogo de abertura?
É uma situação um pouco delicada, provavelmente vai ser um pouco emocional. Eu saí cedo do Brasil para jogar em outro país. E há dez anos jogo pela seleção da Croácia. Nunca imaginei que um dia isso pudesse acontecer: jogar a Copa do Mundo no país onde eu nasci mas jogar por outra seleção e ainda mais sendo contra o meu país e na abertura. Nunca ninguém poderia imaginar isso.
Nunca pensou em defender a seleção brasileira?
Era um sonho de criança jogar na seleção brasileira, claro. Só que o meu destino foi diferente. Eu fui para a Europa. Cresci lá e fiz minha vida lá. Tenho grande amor pela Croácia, pelos torcedores. E eles me tratam muito bem também.
Comemoraria um gol contra o Brasil?
Vai depender do gol. Se for gol de honra, não tem como comemorar. Mas se for de empate ou até da vitória... Mas não sou de comemorar muito. Só abraço meus companheiros, bem tranquilo. Mas isso é do momento, né. Na hora você vê o que vai fazer.
Com a suspensão de Mandzukic, suas chances de ser titular aumentaram. Acredita que começará jogando contra o Brasil?
Venho jogando bem no meu clube nesses últimos seis meses e os jornais e os torcedores vêm colocando meu nome entre os titulares. O mais importante é que estou me sentindo bem e estou preparado física e mentalmente. Acho que tenho qualidade para jogar. Mas ainda está cedo para saber se vou ser titular.
Quais as chances contra o Brasil?
A Croácia sempre joga bem contra seleções grandes. E nesse caso será até bom jogar a abertura. Vejo como uma grande vantagem porque teremos menos pressão, porque jogaremos contra o favorito. E assim poderemos mostrar nosso melhor futebol. Se a Croácia fizer o primeiro gol, será difícil para o Brasil virar. Com a minha experiência aqui, sei que a seleção croata é muito disciplinada e vem muito bem fisicamente. O Brasil vai estar mais nervoso do que a Croácia porque jogará em casa, diante da torcida. Claro que a Croácia também vai estar nervosa, mas quando começa o jogo, tudo passa.
Neymar será mesmo a maior preocupação da Croácia?
Sim, ele é a estrela, talvez não só do Brasil como da Copa, assim como Messi, Cristiano Ronaldo, Iniesta. O Brasil tem outros jogadores de grande nível como Oscar, Fernandinho, Willian. E é forte na defesa também.
Quais são as metas da Croácia na Copa?
A meta, por enquanto, é passar da primeira fase. E vai depender muito da estreia contra o Brasil. Se for bem, pode ir longe. Passando de fase, tudo é possível. Na Croácia, comparam a atual seleção com a de 98 e dizem que agora está mais forte. Mas temos que confirmar isso dentro de campo. Se não confirmarmos, não vamos entrar para a história da Croácia.
Espera ser bem recebido pelos brasileiros ou acredita em alguma reação hostil, por vestir a camisa do rival?
Espero que eles entendam a minha situação, que procurem conhecer minha história. Eu saí cedo do Brasil, vim atrás do pão, como todos. Não fui para a seleção croata por interesse, foi mais pelo carinho mesmo. E nunca tive a oportunidade de jogar no Brasil, ainda mais na seleção brasileira. Estou no futebol europeu há 15 anos.


