Paulo Sérgio Rosa. Ninguém o conhece por este nome no meio futebolístico, mas basta falar que é o Viola do Corinthians que dificilmente os boleiros não saibam de quem se trata. Estrela do time do Parque São Jorge, ele estava na seleção brasileira que faturou o tetracampeonato mundial, em 1994, e durante passagem por Londrina, onde se apresentou com o Corinthians Master como parte das comemorações do aniversário de 75 anos da cidade, concedeu entrevista à Folha e rasgou o verbo.

O craque acredita que é difícil apostar em favoritos quando assunto é Copa do Mundo e acha acertada a atitude do técnico Dunga em deixar entrar em campo apenas quem tem condições de jogar bem. ''Ele está tirando aquele costume de entrar em campo só quem tem o melhor patrocinador ou defende o time europeu mais em evidência'', alfinetou. Sobre a possibilidade de Ronaldo Fenômeno disputar o torneio, acredita que mesmo ''gordo'', jogadores como Diego Tardelli, artilheiro do Brasileirão, ainda estão atrás do ídolo.

Já o Campeonato Brasileiro, Viola acredita que foi vencido pelo time que tinha um elenco unido, fato que atribui à experiência e humildade de Andrade, técnico do Flamengo que até então havia atuado como auxiliar dos principais nomes do cenário nacional. Atualmente, ele divide a agenda entre apresentações com o Corinthians Master por todo o país e as partidas de Show Ball, esporte que acredita estar crescendo no mundo todo e a exemplo do beach soccer ganha identidade própria. ''Ainda vão profissionalizar e vai entrar nas Olimpíadas. Isso tem rendido muita conversa em outros países''.

Dentre todas perguntas, as únicas que ele não quis responder foram as relacionadas ao Corinthians.

FOLHA - Falando sobre o sorteio dos grupos da Copa do Mundo, você acha que o Brasil tem adversários fáceis ou difíceis? Qual a sua análise?
Viola - Eu acho que o grupo do Brasil não está tão difícil. O jogo é em campo e as surpresas sempre existiram nas Copas do Mundo. Sempre foi desta forma e já tivemos exemplos como a própria Turquia que chegou em terceiro lugar com jogadores que o mundo não conhecia, com um futebol mais limitado. Hoje, acho que não existe mais bobos dentro do futebol. Existe o fator garra e determinação e nem sempre o melhor vence. O Brasil demonstra ter jogadores de qualidade, que na maioria atuam fora e estão acostumados com os europeus e o futebol do mundo. Acredito que a Seleção passe de fases até a chegar na final, mas é difícil prever se vai ser campeão.

FOLHA - Cristiano Ronaldo e Drogba são as estrelas que estão na chave do Brasil. Você acha que eles podem dar trabalho?
Viola - Eu acho que cuidado o Dunga tem que ter com os demais. A gente já sabe que os dois são bons jogadores, que desequilibram e podem fazer a diferença. Isso aconteceu em 1998, quando a França venceu a final sobre o Brasil. Se fosse uma seleção com jogadores cariocas e paulistas eles não ganhariam nunca. Pelo incidente com o Ronaldo os brasileiros entraram fragilizados, meio dormindo e o nome do jogo foi o (Zinedine) Zidane. Era o único que tinha um bom futebol e que até aquele dia não era expressivo, conhecido e só ficou famoso depois que foi campeão sobre o Brasil. Eu acho que o maior cuidado é com todos. Você pode pensar que o Cristiano Ronaldo vai desequilibrar, mas pode ser outro que está mais solto o nome do jogo.

FOLHA - O Ronaldo Nazário, o Fenômeno, tem condições de disputar mais uma Copa?
Viola - Eu seria um hipócrita se dissesse não. Mesmo com ele ''gordo'', quem é melhor que ele na ativa? Obina? Souza? Diego Tardelli? Não. São meus amigos, mas eu sou sincero. O Diego cresceu muito, sempre foi bom desde a época do São Paulo, que é o único clube do país com características de europeu. Ele é um jogador que desequilibra, tem habilidade, sabe tabelar e bate bem na bola. Fora ele tem o Nilmar, que é um cara rápido e inteligente e consegue ser hábil ao mesmo tempo. Como colocaram que o Ronaldo está gordo existe um preconceito. Mas mesmo gordo fez oito gols no Brasileiro e quando ele não está em campo o Corinthians é outro. Por isso acredito que tenha condições.


FOLHA - O estilo que o Dunga usa para administrar a Seleção é o principal empecilho?
Viola - O Dunga já tem um elenco fechado, que é um grupo com jeito de 'operários', sem lugar para estrelas. Ele está acabando com aquele costume de jogar como titular só quem tem o melhor patrocinador ou defende o time europeu mais em evidência. Entra em campo agora quem tem condições de atuar bem. Ele implantou essa filosofia. Quem estiver fora de forma ou querendo passear na Copa não vai. E nisso o Dunga está certo. Se fossem outros, estariam fazendo 'esquemas' para colocar uns e outros na Seleção como sempre aconteceu e ninguém fazia nada. Como Dunga é um cara vitorioso como jogador e mostra que é capaz como treinador, ele não precisa disso. Quando ele ganhou dos argentinos na casa deles foi a prova maior. Com diz o Velho Lobo (Zagallo): agora vão ter que engolir o Dunga. Desde o começo ele implantou esse sistema, colocando Kaká e Ronaldinho no banco e deu certo.

FOLHA - Você acha que os 'técnicos de nome' estão passando por uma crise no futebol?
Viola - Para mim, todo técnico que dirige um time profissional tem nome. O Andrade não pode ter o mesmo currículo de um Vanderlei Luxemburgo ou do Nelsinho Baptista, mas é o treinador do Flamengo e deu recado para todos eles. Mas eu não vejo culpa alguma no Muricy Ramalho, do Palmeiras, em não levar o título. Para ser campeão o conjunto é importante e a partir do momento que três ou quatro ficam de fora do foco surgem problemas internos entre jogadores e diretoria. Isso o torcedor não vê. Particularmente, não vi nenhum clube brasileiro abrir seis pontos no nacional não ser campeão. O Palmeiras abriu nove pontos e achou que era campeão, mas como o jogo tem noventa minutos tudo pode acontecer, porque todos querem vencer.

FOLHA - O Flamengo levou a taça por quê?
Viola - O Andrade, pode reparar, é um cara que entra em campo calado e sai mudo. Como ele já trabalhou ao lado de mais de 15 técnicos como auxiliar, sempre tirou proveito de coisas boas. Os atletas adoram treinadores desta forma, simples, humildes. Mas foi devido ao trabalho de quem acreditava que poderia chegar, comendo sempre pelas beiradas. Quando se dá o favoritismo a um time a cobrança é muito grande e quem faz igual ao Flamengo acaba levando. Preferia que fosse um time paulista, mas o título foi para um time certo. O Inter seria outra equipe que merecia, pois também veio comendo pelas beiradas.

FOLHA - Como você avalia a campanha do Andrade à frente do Flamengo, no Brasileirão?
Viola - É um cara que veio comendo pelas beiradas, mas como já jogou sabe falar a lingua do boleiro. Também é um cara simples, que não quer aparecer mais que o atleta e por isso foi campeão. Foi assim que ele saiu do décimo quarto lugar para ser campeão brasileiro.

FOLHA - O que você acha da cena deplorável após a partida entre Coritiba e Fluminense, no Estádio Couto Pereira?
Viola - Há 10 anos atrás, o futebol era um verdadeiro espetáculo. A torcida ia ao estádio para poder torcer. Abraçavam os adversários, aplaudiam e vaiavam. Mas ao sair dali com esposas e filhos iam para casa pacificamente para trabalhar no dia seguinte. Mas não é só no estádio do Coxa que acontecem estas fatalidades. É no Brasil inteiro. Um torcedor ir para campo sabendo que o clube poderia ser rebaixado como o Corinthians - que tem nome no mundo todo -, o Flamengo - que lutou quatro anos contra o rebaixamento - ou o Botafogo e Fluminense que estavam na berlinda. Se eu fosse torcedor do Coxa e não aguentasse ver meu time ir para a segunda divisão não compraria ingresso e nem iria ao estádio. Se for para machucar os outros, pode ficar em casa. E quem tem filhos pequenos, eu aconselho que não leve em jogos muito agitados. Existe um bando de marginais infiltrados nas torcidas que vão justamente para agredir e bater. São covardes, porque não vão sozinhos, mas em 15 e 20 para pegar uma pessoa. São pessoas sem compaixão. A culpa não é do policiamento que também não deveria nem ter, porque o estádio é lugar de espetáculo e não um campo de batalhas. A polícia fez o que podia e o correto é banir os marginais do estádio.

FOLHA - Hoje os jogadores não defendem a camisa do clube e pensam em fazer nome rápido para jogar na Europa. Porque essa essência do futebol de verdade desapareceu?
Viola - Não existem muitos craques hoje em dia, mas sim mentirosos. A culpa não é dos jogadores, porque hoje em dia qualquer garoto da periferia que tem um pouco de noção de futebol tem cinco empresários em cima deles. Com diretores e presidentes de clubes eles tentam vender o quanto antes para o exterior. A culpa primeiro é dos dirigentes que só pensam em vender e não colocam o dinheiro nos clubes. Tem outra, enquanto o futebol não tiver profissionalismo desde cima não vai para frente. Por isso não temos mais craques, são alguns que são diferenciados e não duram nos clubes brasileiros.

FOLHA - Já te chamaram para ser comentarista de futebol?
Viola - Não. Como eu não encerrei a carreira talvez seja por isso. Eu penso em jogar, mas também é uma proposta para se estudar. Ainda não recebi nenhum convite para encarar esse desafio, mas para tudo que me convidam eu analiso e com gosto de desafios eu estudo as possibilidade e minha capacidade antes de aceitar.

FOLHA - O show ball é a nova onda entre os boleiros?
Viola - É uma modalidade que cresceu muito no país e portanto estamos fazendo várias excursões no Brasil e fomos para o Japão recentemente. Temos uma seleção que já enfrentou Colômbia e Argentina. Já fizemos um mundialito na própria Espanha e dentro do país já tem Campeonato Paulista, Rio-São Paulo e o Brasileiro. É a diversão de alguns craques que já pararam, mas que ainda possuem alegria de mostrar como se joga futebol.

FOLHA - Quem é a turma que gosta de jogar e qual o futuro enquanto esporte?
Viola - Djalminha, Márcio Santos, Ricardo Rocha, Gonçalves, Válber, Júnior Baiano, Dinei, Henrique e o goleiro Ronaldo (ambos ex-Corinthians), o goleiro Zetti, Ronaldão, Rincon e Vampeta. Eu acredito que ainda vão profissionalizar e ainda vai entrar nas Olimpíadas. Isso tem rendido muita conversa em outros países. Inclusive, fui convidado com o Djalminha para compor a seleção das estrelas para jogar em Bogotá no próximo ano.

mockup