São Paulo - Pelé fez 1.282 gols, jogou 1.366 partidas, venceu três Copas do Mundo e, sem falar para ninguém, escreveu mais de 100 músicas. As canções eram feitas nas concentrações da seleção brasileira, nos aviões, na sala de casa. Às vezes vinham inteiras, letra e música, às vezes aos pedaços. E surgiam sempre quando Pelé estava triste, com saudades do feijão da mãe, do boi morto em seu sítio, do filho preso em São Paulo.
Aos 66 anos, Pelé perdeu os temores de dizer que também sabe fazer música e aceitou, pela primeira vez, falar sobre suas novas canções e mostrar o que mantinha em sigilo. A entrevista exclusiva à Agência Estado foi concedida no estúdio do maestro Ruriá Duprat, em Campo Belo, mesmo local em que foi gravado o CD ''Ginga Brasil'', lançado no exterior mas ainda inédito no País, e que Pelé gravará um novo CD em poucos meses. ''Ginga Brasil'' é um trabalho meticuloso em que Pelé canta com o rapper Rappin Hood e com Gilberto Gil e é acompanhado por músicos de primeira divisão, como o guitarrista Ricardo Silveira e o flautista Teco Cardoso.
O maestro do Rei, quem Pelé chama de treinador, é o experiente Ruriá Duprat, sobrinho do tropicalista Rogério Duprat. Foi Ruriá quem escreveu os arranjos grandiosos, alguns para orquestras, e cobrou de Pelé o sentimento, o ritmo e a afinação que deveria ter para não perder a majestade. Foi Ruriá também quem testemunhou as pernas de um homem que deu nó nas canelas dos zagueiros tremendo diante do microfone. ''O silêncio do estúdio dá mais frio na barriga do que um estádio cheio'', diz Pelé.
A canção ''Acredita no Véio'' exigia uma interpretação ousada. Pelé tinha de cantar como um pai-de-santo com o santo no corpo. A letra de Pelé é baseada em fatos reais e um personagem pitoresco de seus tempos de Santos, o técnico Lula: ''Acredita no véio / Pode falar Mizinfi/ Que o véio tem força / faz seu time ganhar / O dinheiro é pro santo / Pode pagar Mizinfi / Que o veio não cobra / prá trabalhar.''
O dilema é que Pelé fazia uma, duas, 30 vezes e a voz de pai-de-santo não saía. Até que, depois de uma série de frustrações, virou para o ''treinador'' e lembrou o menino de 14 anos que prometeu trazer uma taça do mundo ao pai que chorava a derrota do Brasil na Copa de 50: ''Chega. Solta isso aí agora que eu vou fazer isso pra valer''. O resultado? O maestro narra: ''Ele estava perdendo para a música de 5 a 0. Quando saiu do estúdio, já ganhava de 7 a 5''.
Pelé comovido é como uma torneira que se abre e só fecha depois de um tempo. Ele mesmo sabe disso. Quando as lágrimas vêem, só diz ''deixa, deixa que já passa''. E elas vieram quando cantava uma canção que fala das crianças injustiçadas. No meio dos músicos, a torneira se abriu e veio junto um desabafo. ''Caramba, não sei porque acontece isso ainda. Eu falo sobre isso há tanto tempo.''
Ao todo o disco tem 12 músicas, todas de autoria de Pelé, entre elas as duas que ele havia gravado com Elis Regina nos anos 70, ''Perdão não Tem'' e ''Vexamão''. As outras são rock, música caipira, samba. ''Eram 80 músicas quando começamos a trabalhar'', lembra Ruriá. ''O mais impressionante é o preparo físico dele. Fizemos aqui sessões de cinco, seis horas direto.''
O maestro adianta que já está sendo trabalhado um novo disco de Pelé, que contará agora com duetos com artistas internacionais ainda mantidos sob sigilo. ''Será uma espécie de Pelé Duets.''
As sessões de gravação tiveram seu maior espetáculo no dia em que Ruriá, sem Pelé, tentava reger 22 músicos na sala de gravação. De repente, Ruriá se sentiu invisível. Os músicos olhavam por cima dele, para o lado dele, mas não para ele. Até que um criou coragem. ''Maestro, por acaso aquele homem que está ali na sala é o Pelé?''. E pronto. O ensaio parou e uma fila se formou diante de Pelé. Eram autógrafos para ''santistas desde pequenininhos'' que não acabavam mais.
Um outro dia chegou Rappin Hood, convidado para fazer a abertura de uma música de Pelé. Se desmanchou em elogios e fez questão de fazer ao pai uma daquelas surpresas que alegram ou infartam. ''Pelé, fala com meu pai no telefone? Ele não vai acreditar.'' Rappin ligou para o pai e passou para Pelé. E Pelé nunca havia escutado tanto xingo. ''Pára moleque, fica imitando o Pelé aí.'' ''Não, é o Pelé mesmo.'' ''Que Pelé que nada.'' Custou, mas o pai de Rappin acreditou.
Quanto à música de Pelé? Seus versos são simples e sua voz tem limitações, mas é com isso que ele vira o placar. E se Chico Buarque pode jogar bola, Pelé pode cantar.

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