Viciado por trabalho, o técnico Bernardinho só pensa em vôlei
PUBLICAÇÃO
domingo, 19 de novembro de 2000
Agência Estado De São Paulo 
É um viciado pelo trabalho, um workaholic do vôlei, capaz de ir para a quadra no dia seguinte ao da chegada de uma viagem desde a Austrália, depois de uma temporada e um torneio desgastantes, como a Olimpíada, de horas e horas dentro de um avião, da diferença de fuso horário... E do estresse da quadra, provocado por tanto treino e jogo. A explicação é simples. Bernardinho, o novo técnico da seleção masculina, adora o que faz, tem compromisso com o vôlei.
Ele não se incomoda em passar seus dias na quadra para conseguir a perfeição de um jogador, mais defesa, mais bloqueio, variação no ataque. Passa noites em claro para ler, estudar, ver fitas, descobrir como jogam rivais, traçar estratégias, decidir como administrar egos e vaidades, como ter o apoio do grupo ou a forma de pedir desculpas, no dia seguinte, por seus excessos.
Bernardo Rezende, o Bernardinho, de 41 anos, tornou-se técnico aos 30. Como jogador, na seleção, foi o eterno reserva de William, em uma geração de craques Montanaro, Renan, Bernard, Amauri e Xandó, entre outros. O técnico Bernardinho definiu o levantador Bernardinho como limitado tecnicamente, mas trabalhador.
Foi no banco que começou seu aprendizado, observando. Sempre foi um rato de quadra até hoje assiste a todos os treinos que pode, no Brasil ou no exterior, de equipes femininas e masculinas, juvenis ou adultas. A formação acadêmica é economista ajudou e foi transferida para o vôlei. Economia é a ciência social que trata da otimização de recursos que são escassos, não são ilimitados. É isso o que faço no vôlei.
O envolvimento de Bernardinho com o vôlei vem de sempre e engloba toda a família. Os pais, Maria Ângela e Condorcet (o nome vem de um filósofo francês positivista, admirado pelo avô), conheceram-se jogando vôlei. Bernardinho, o segundo mais velho de cinco irmãos, começou a jogar aos 11 anos. Casou-se com a jogadora Vera Mossa, com quem teve Bruno, de 14 anos. Atualmente, é casado com outra jogadora, a levantadora Fernanda Venturini.
Foi vice-campeão mundial em 1982, na Argentina, e vice-campeão olímpico nos Jogos de Los Angeles, em 84, com o grupo de Bebeto de Freitas. Deixou a seleção brasileira após o Mundial de 86, mas ainda jogou até 89 por clubes - Atlântica Boavista, Bradesco, Flamengo e Vasco. Na Olimpíada de Seul, em 88, foi assistente de Bebeto de Freitas. Em novembro de 89, começou a carreira de técnico, no time feminino do italiano Peruggia, em que ficou por duas temporadas e meia. Mais um ano em Modena, com um time masculino, e voltou ao Brasil, no fim de 93, para assumir a seleção feminina. Em 26 de dezembro, um dia após o Natal, dirigiu seu primeiro treino com as meninas.
Quem pensa que os gritos, os gestos bruscos, as caretas de Bernardinho assustam jogadores ou dirigentes está enganado. Agora na seleção masculina, garante que não abrirá mão do seu estilo quer um time operário e responsável, que trabalhe sem cessar, sempre buscando a perfeição técnica. Quer uma equipe que pense na essência, com foco total no esporte sem desviar a atenção para o que uma cidade como o Rio oferece.


