Atenas - O ex-bóia-fria paranaense Vanderlei Cordeiro de Lima, 35 anos, conquistou na tarde de ontem uma medalha histórica para o atletismo brasileiro. Depois de liderar a maratona, prova que encerrou os Jogos Olímpicos de Atenas, por mais de 40 quilômetros, ele terminou em terceiro lugar, garantindo a primeira medalha olímpica conquistada por um brasileiro na maratona.
''Essa medalha veio para coroar toda a minha carreira esportiva. Levei isso muito a sério. É fruto de muito trabalho, não ganhei por acaso'', disse o atleta, que nasceu em Cruzeiro do Oeste (25 km a leste de Umuarama).
Incidente Vanderlei largou na 35 posição, mas assumiu a liderança duas vezes. A segunda ocorreu no Km 20, mas um incidente atrapalhou o maratonista no Km 32 e o fez perder oito segundos de corrida. O ex-padre irlandês Cornelius Horan, 57, o mesmo que invadiu o GP da Inglaterra de Fórmula 1, em junho do ano passado, invadiu a rua e agrediu o fundista brasileiro. ''Nem sei o que aconteceu. O cara entrou, me derrubou, falou um monte de coisa e eu não consegui entender nada do que ele falava. O cara era completamente maluco'', comentou o corredor.
Retirado pelos policiais, Horan, que sofre de problemas mentais, disse que estava lá para anunciar o ''derradeiro julgamento da humanidade.'' Nem mesmo a interferência do incidente no resultado da prova abalou o atleta. ''Quando um atleta está em ritmo final de prova e alguma coisa interfere, é necessário buscar um novo ritmo. Se ele estivesse com uma faca, teria me matado. Não culpo ninguém pelo ocorrido. É muito complicado isolar o público'', declarou. ''Não vou chorar agora. Estou muito feliz. Ganhei uma medalha.''
Recurso O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) entrou com recurso para modificar o resultado da prova. O pedido foi encaminhado para o juri de apelação da Associação Internacional das Federações de Atletismo (Iaaf), mas foi recusado.
Segundo o presidente do juri de apelação, Amadeo Francis, o regulamento não prevê alteração de resultado de provas por este motivo. Um novo documento foi encaminhado para a Corte Arbitral do Esporte, em Lousanne, na Suíça. No recurso, além de pedir a medalha de ouro para o brasileiro, o COB também solicitou que o Comitê Organizador dos Jogos e a IAAF indenizem o atleta.
Durante a cerimônia de premiação, o presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), François Carrard, pediu desculpas ao atleta. ''Eu não podia fazer nada, só aceitar. Mas se quiserem me dar uma medalha de ouro, também aceito'', disse Vanderlei, que também recebeu a medalha Barão Pierre de Coubertin, um prêmio do COI. Em 108 anos de Jogos Olímpicos, esta medalha só foi concedida uma vez, quando um velejador abandonou a prova, nos Jogos de Seul-88, para salvar uma pessoa que havia caído no mar.
A medalha de ouro ficou com o italiano Stefano Baldini, que terminou a prova em 2h10min55s, seguido pelo norte-americano Mebrahtom Keflezighi (2h11min29s). Vanderlei fez 2h12min11s.

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