Imagem ilustrativa da imagem Vencedores carregam tocha olímpica em Curitiba
| Foto: Gaspar Nóbrega/Bradesco
"Espero que as Olimpíadas ajudem a unir o Brasil", disse Williams, ao lembrar que o rúgbi foi usado por Mandela para diminuir as diferenças entre negros e brancos após o apartheid
Imagem ilustrativa da imagem Vencedores carregam tocha olímpica em Curitiba
| Foto: André Luiz Mello/Rio-2016
Atleta paralímpico, Moisés Batista abriu o revezamento da chama na capital do Estado. "Transmitir alegria para as pessoas é algo ímpar", afirmou



Curitiba – A passagem da tocha olímpica por Curitiba, ontem, foi marcada por protestos de diferentes grupos políticos, mas também pela presença de personalidades que fizeram história dentro e fora das quadras ou campos esportivos do planeta, como o ex-atleta de rúgbi sul-africano Chester Williams, a nadadora estadunidense Summer Sanders e a ginasta Jade Barbosa. O revezamento com 170 condutores começou por volta das 10h30, em frente ao Museu Oscar Niemeyer (MON), no Centro Cívico, e percorreu 36 quilômetros, até chegar à Pedreira Paulo Leminski, onde aconteceu a cerimônia de acendimento da pira, já ao anoitecer, e uma série de shows. Apesar das manifestações, não houve registros de incidentes mais graves.
Em entrevista à FOLHA antes de receber a chama, em Santa Felicidade, Williams, de 44 anos, disse esperar que os Jogos do Rio ajudem o Brasil a se unir. "O esporte muda a cabeça das pessoas, muda o mundo de um jeito positivo, como nós percebemos com o futebol, com as Olimpíadas, e como aconteceu em 1995". Naquele ano, ele foi o único negro a integrar a seleção da África do Sul campeã mundial, apelidada de "Springboks". A vitória inspirou o livro "Conquistando o Inimigo", de John Carlin, e o filme "Invictus". "Nelson Mandela queria que eu trabalhasse com ele para fazer o time e a nação serem bem sucedidos. Foi muito importante para mim ganhar o torneio", contou, em referência ao líder rebelde e presidente do país entre 1994 e 1995.
Mandela, aliás, se tornou amigo pessoal do ex-jogador. "Era maravilhoso (conviver com o presidente). Fui um dos privilegiados. Ele foi ao meu casamento, eu tive jantares com ele, almoços... Conversar com ele era realmente uma grande experiência. A humanidade era a coisa mais óbvia que você conseguia captar de sua mensagem", relembrou. Na década de 1990, a convocação exclusiva de atletas brancos era comum, devido à vigência da política segregacionista do apartheid. "Eu acho que aquilo não só mudou a África do Sul, mas mudou o mundo, pois o mundo entendeu o que significava ver uma África do Sul unida, como uma nação", avaliou.
O sul-africano afirmou ainda que precisou "colocar para trás" o racismo que sofreu e se focar inteiramente no esporte. "Pelo seu talento, você pode fechar a boca dessas pessoas (racistas), como eu fiz em 1995. Tudo que eu fiz foi jogar rúgbi e me tornei bem sucedido ao ganhar uma Copa do Mundo e transformar a África do Sul em uma nação unida. Se todos os jogadores pudessem apenas fazer o seu trabalho, ao lado de seus companheiros de time, eles poderiam mudar a consciência das pessoas, ao se tornarem os melhores do mundo", disse o ex-atleta, indicado pelo Bradesco.

ALEGRIA
Assim como Williams, o atleta paralímpico do rúgbi Moisés Batista, primeiro a conduzir a tocha ontem, se disse emocionado por representar o Brasil e, em especial, sua cidade natal, Curitiba. "Num momento tão difícil que o mundo está vivendo, de tanta tristeza e tanta dificuldade, onde o amor não é disseminado, a gente poder transmitir alegria para as pessoas é algo ímpar". O paranaense participou dos jogos de Atenas, em 2004, e Pequim, em 2008, além de cinco Pan-americanos. "Competi na natação por 20 anos, escolhi o rúgbi para encerrar minha carreira, fui até Toronto, tentei o Rio, não consegui, mas estarei lá torcendo por todo mundo".
Moisés entregou a chama para o montanhista Waldemar Niclevicz, conhecido por ter escalado o Everest, o mais alto monte do planeta. Em seguida, o "comboio" seguiu por diversos pontos da capital, incluindo o Passeio Público, o Jardim Botânico, o Teatro Guaíra, a Ópera de Arame, e as Praças Santos Andrade, Tiradentes e Rui Barbosa. Entre os condutores estavam ainda ativistas, jornalistas, professores e um refugiado da Guiné, Abdoulaye Kaba, de 18 anos, que chegou ao Brasil em dezembro de 2012. O pai dele foi acusado de participar de uma tentativa de golpe contra o governo e, como consequência, teve a casa invadida. O jovem vive hoje em Niterói (RJ).
Quem encerrou o revezamento, no início da noite, foi o ex-jogador de vôlei de praia Emmanuel Rego, ouro nos Jogos de Atenas, em 2004. O símbolo olímpico começou o revezamento no Paraná por Londrina, no dia 28 de julho, já passou por outros 20 municípios e retornou ontem após o trajeto pelos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. De Curitiba, ele seguiu para Fazenda Rio Grande, Araucária e Campo Largo, na região metropolitana, e depois para Ponta Grossa (Campos Gerais). A última cidade do Estado a recebê-lo será Castro, hoje, antes da partida para Itararé (SP).

mockup