Valeu, Guga
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de maio de 2008
Fernando Itokazu<br> Folhapress 
Paris - Amigos chegaram a questionar se valia a pena jogar em Roland Garros pela última vez. Questionavam se ele não corria o risco de ser ''atropelado''. Uma hora e 48 minutos depois de iniciar o confronto com Paul-Henri Mathieu, 19º do mundo, Gustavo Kuerten chorou, mas sabia que a decisão de encerrar a carreira ali havia sido correta.
Perdeu por 3 sets a 0, mas conseguiu jogar muito bem e foi saudado pela torcida, que ocupava quase a totalidade da Phillipe Chartrier, quadra central de Roland Garros. A partida teve ''bate-papo'' com a torcida, risadas, troca de gentilezas entre os rivais e até um ''mata-leão'' no francês.
O jogo, que só foi transmitido para o Brasil por TV fechada, começou tenso. Ao ter o saque invalidado no segundo game por, segundo o árbitro de linha, ter invadido a quadra, Guga demonstrou irritação e, ao se posicionar novamente, ficou cerca de meio metro da linha e fez sinal ao juiz perguntando se estava bom. Mathieu conseguiu uma quebra e fechou a parcial em 6/3.
Apesar do desconforto físico, o brasileiro protagonizou jogadas de efeito, que arrancavam aplausos entusiasmados. ''Hoje (ontem) joguei além das minhas expectativas. Fiz de tudo um pouco, direita paralela, cruzada, esquerda, fui à rede e saquei bem'', afirmou ele.
O serviço, uma das boas armas de Guga no auge, foi eficiente. Em vários momentos de perigo, o brasileiro se safou com ace - foram nove. O francês aproveitou uma bola para fora do adversário e fechou o segundo set em 6/4.
O terceiro set foi o mais emocionante. Mais descontraído, Guga conversou com torcedores antes do início da parcial. No quarto game, já com o saque quebrado uma vez, Guga corrigiu a marcação do juiz, que havia gritado bola fora de Mathieu, que fechou o game com a atitude. A torcida aplaudiu demoradamente o gesto de Guga.
Mas o ponto alto da integração entre Guga e a torcida ainda estava por vir. No intervalo após o sétimo game, a torcida ensaiou a tradicional ola, que só engrenou após algumas tentativas e vaias para quem quebrava a sequência. Mas, quando a brincadeira funcionou e todo o estádio participava, o telão mostrava a cara de satisfação de Guga com a atitude.
O brasileiro deixou o banco e antes de se dirigir para seu lado da quadra foi em direção a Mathieu, que ainda estava sentado. Com a raquete, fingiu enforcar o adversário, que também ria. ''Tentei dar um mata-leão nele'', afirmou o brasileiro.
A empolgação tomou conta da torcida no último game da carreira de Guga. O ex-número um do mundo ainda consegui salvar um match point, mas o fim chegou numa rebatida na rede. Guga tirou a bandana, que completava o uniforme azul e amarelo (o mesmo com que venceu em 1997), e foi à rede para cumprimentar o rival.
Após acenar para o público, o brasileiro sentou, cobriu a cabeça com uma toalha e chorou. A Federação Francesa preparou uma homenagem ao tenista: um troféu com as camadas de uma quadra de saibro.
Enquanto o telão mostrava cenas como a do coração que ele desenhou no terceiro título, em francês capenga (chegou a pedir ajuda ao locutor), Guga disse que Roland Garros é seu amor, seu coração e tudo e agradeceu à torcida, que terminava de ver a última partida de simples do tricampeão do torneio.


