Vagner revela seus sonhos: jogar na seleção e... ser campeão no Londrina
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de agosto de 1998
Nelson Cilo 
Ao voltar a Londrina para rever amigos e familiares, Vagner - campeão da Libertadores pelo Vasco - recebeu a imprensa local na sala bem decorada na luxuosa casa do Jardim São Fernando que, anos atrás, deu de presente à mãe, Maria Aparecida Nunes. Era o dinheiro das luvas (15%) da transferência do União de Araras para o Santos. A história do lateral - que já foi volante e meia-direita - sugeria dois caminhos ao menino pobre que saiu meio sem rumo de Londrina para tentar a sorte no futebol: a glória ou o fracasso.
Arquivo FolhaA taça da Libertadores: campeãoOs últimos capítulos mostraram um final feliz. O garoto peralta que faltava das aulas para correr atrás da bola nos campos esburacados da Vila Portuguesa ficou famoso, mas não perdeu a humildade.
As entrevistas - estava claro nas lágrimas de Vagner e de Maria Aparecida - transformaram-se em um desabafo emocionado de quem nunca mais vai se esquecer das noites famintas naquela casinha simples do Estádio VGD. Ele, a mãe, o irmão Alexandre e o avô Antonio Pereira Nunes moravam lá. D. Cida, que havia sido abandonada pelo pai das crianças - o ex-jogador Zé Rubens, hoje treinador, curiosamente, no União de Araras - precisava dividir raspa de pão e apenas um ovo com os dois filhos.
Vagner carrega alguns sonhos no futebol. Um deles: a Seleção Brasileira. Ele torce para que o técnico Wanderley Luxemburgo, que o dirigiu no Santos, o convoque para disputar os próximos amistosos. Melhor que isso, só mesmo uma Copa do Mundo. Tenho fé em que ainda vou chegar lá.
Vagner confessa que tem outro desafio: o título mundial pelo Vasco na final de Tóquio contra o Real Madrid. Uma das ambições, segundo ele, é vestir a camisa do Londrina ainda no auge da carreira. É só eu completar minha independência financeira que vou aparecer no Londrina. Não só para disputar um campeonato, mas para ganhar um título. Quanto eu era criança, eu já pensava em dar a volta olímpica como campeão pelo Londrina. A imagem ficou na minha cabeça.
Arquivo FolhaContra o Barcelona: esperança de ser convocado por LuxemburgoVagner não pretende mais deixar o Vasco para retornar ao futebol italiano. O passe pertence à Roma, que fixou o preço em US$ 6 milhões. O Vasco pagou R$ 1,2 milhão pelo empréstimo, até junho de 99. Se quiser contratá-lo em definitivo, o clube carioca terá de investir mais R$ 4,8 milhões.
Folha - Como foi o seu começo?
Vagner - Eu sempre acreditei em mim. Eu dizia pra minha mãe: eu só preciso de uma chance pra vencer na carreira e ajudar a senhora. Só Deus sabe como sofri no passado, mas não guardo nenhuma revolta. Nunca ignorei minhas origens. Não mudei o meu jeito. Olho a vida de frente.
Folha - Nenhum trauma daquela rotina sofrida e sem esperança?
Vagner - Nada. Nenhuma. Estou de bem com a minha vida e comigo mesmo. Levo tudo certinho. Não sou de noitadas nem de farra. Aliás, nunca fui de coisas erradas. E olha que não faltou chance no meio de tantos maconheiros.
Folha - Como era o teu temperamento na época de menino?
Vagner - Eu era respondão e resmungão pra minha mãe, só isso. Mas acredito que jamais a decepcionei em coisas mais graves. A gente sofria junto, comia aquele pouquinho que tínhamos em casa, mas, como ocorre até hoje, éramos solidários.
Folha - Aí pintou o início de uma carreira de muito sucesso...
Vagner - Primeiro, o Limpa-Trilho (Otávio Gianelli) me levou pro infantil do Arapongas. Acho que eu tinha uns 13 anos. Fiquei lá um tempo. Em 89, me apresentaram no Paulista de Jundiaí. Me profissionalizaram quando eu tinha 16 anos. Fui treinar no São Paulo e me aprovaram, mas não quiseram pagar o preço que o Paulista pediu. Retornei a Jundiaí. Depois, o Paulista me emprestou ao União de Araras. Fiquei lá seis meses e me contrataram em definitivo. Me transferi para o Santos na metade do Campeonato Brasileiro de 95.
Folha - Aí é que você passou a ganhar dinheiro no futebol?
Vagner - Quando o União e o Santos concluíram a minha transferência, peguei os 15%, separei R$ 60 mil e comprei esta casa que ainda estou ampliando pra minha mãe.
Folha - Qual foi a reação dela?
Vagner - Cheguei de noite no casebre de um cômodo que a gente alugava, joguei uma sacola de dinheiro no chão e, todo sorridente, falei pra ela: tá aqui a casa que eu te prometi. Ela chorou, é lógico. Nos abraçamos - eu, ela e o Alexandre (irmão dele)- e choramos juntos. Era um sonho. Era o fim do pesadelo.
Folha - O teu avô (Antonio Pereira Nunes) ajudou a criá-lo?
Vagner - Morávamos todos na casinha do VGD. Ele, como zelador. Eu e minha mãe, principalmente ela, varríamos a sujeira que se acumulava no campo. Eu nunca me esqueci dele. Fiquei chateado ao ler (na Folha de sexta-feira) que eu nunca dei nada pra ele. Não é verdade. Minha mãe dá toda a assistência pra ele. Quero bem o velhinho. Ele sabe que, se precisar de mim, sempre farei qualquer coisa pra ajudá-lo.
Folha - O que é que mais te magoou?
Vagner - O que os amigos pensariam de mim? Que eu subi na vida e me esqueci do meu avô. Aliás, meu grande ídolo na vida era o Ayrton Senna, que auxiliava creches e instituições de caridade e não precisa falar nada a ninguém. Eu também não diria.
Folha - E se o Vasco não conseguir comprar o teu passe?
Vagner - Sei que na Itália ou qualquer país da Europa eu ganharia muito mais. Só que hoje eu não estou pensando no lado financeiro, mas naquilo que eu pretendo alcançar: o título mundial interclubes e a Seleção Brasileira.
Folha - Se a proposta da Roma for bem superior, você fica?
Vagner - Exato. Não é o dinheiro que iria influir. A menos que os meus empresários (Reinaldo Pita e Alexandre Martins, que também cuidam dos negócios de Ronaldinho) trouxessem uma proposta daquelas para as quais você não pode dizer não. Quer dizer, daquelas de balançar. Não seria apenas o dobro do que recebo aqui no Brasil que iria me levar embora.
Folha - Você ficaria mais pela Seleção Brasileira do que pelo Vasco?
Vagner - Pelos dois motivos. Eu e a torcida nos identificamos demais. Bateu aquele apego. É como eu falei: pra eu sair só mesmo pintando um terremoto de proposta. E, se eu fosse para a Itália, não gostaria de continuar na Roma.
Folha - Algum problema na Roma?
Vagner - É o seguinte: enquanto estive lá, nunca participei de um jogo inteiro. Entrei só 45 minutos. Os torcedores gostaram. Até comentaram que eu seria o novo rei de Roma. Mas o técnico preferia me deixar como opção. Paciência.
Folha - Você mudou de posição, trocou o meio-campo pela lateral...
Vagner - Os meus melhores treinadores, como o Wanderley Luxemburgo, o Jair Picerni e o Candinho, sempre me aconselharam a jogar como lateral-direito. Me diziam que gostavam mais de mim como ala. O Antonio Lopes tem a mesma opinião e resolver me fixar na lateral direita. O Lopes lembrou que assim ficam maiores minhas chances de buscar uma vaga na Seleção Brasileira. Concordo.
Folha - A senhora também torce pelo Vasco, dona Cida?
Cida - Não é que eu torça. Eu sofro demais pelos times que o meu menino defende. Só que eu não tenho coragem nem de ouvir pelo rádio nem de ver pela televisão. Parece que eu vou morrer de tanto sofrimento.
Folha - Então, a senhora nem acompanhou a final da Libertadores?
Cida - Não. Enquanto o Alexandre (o filho mais velho, de 28 anos) e alguns amigos viam tudo pela TV, eu rezava. Pedia a Deus pelo meu filho. Andava pra cá e pra lá. Uma loucura. Era como se fosse um martírio.
Folha - A senhora não se contém e chora quando fala do passado...
Cida - É a gente vivia na pobreza. Era uma luta danada. Meu filho, coitado, me dizia que ainda iria me tirar daquela miséria.
Folha - Como a senhora sustentava o Vagner e o Alexandre?
Cida - Quando o pai do Vagner se mudou para Bauru para jogar no Noroeste, eu era companheira dele e fui junto. Não éramos casados no papel. Eu estava grávida do Vagner, que nasceu em Bauru. Só que o Zé Rubens arranjou outra mulher e me abandonou. Os dirigentes do Noroeste me acusaram de estragar a carreira dele e me deram 24 horas para eu desocupar a casa em que eu morava. Fui para o Rio de Janeiro e comecei a trabalhar como costureira industrial para sobreviver. Quatro anos depois, voltei para a Londrina.
Folha - O Vagner nunca mais viu o pai? (Vagner interrompe e responde pela mãe)
Vagner - Uma dia, em 89, creio, joguei pelo Paulista de Jundiaí contra o Araçatuba. Meu pai era o técnico deles. Quer dizer, joguei contra ele. Antes do jogo, fui cumprimentá-lo friamente. Não senti nada.
Folha - Só o encontrou uma vez?
Vagner - Não. Houve outro jogo em que o vi. Só perguntei: oi, como vai? Ele me respondeu que estava tudo bem. Viramos as costas e saimos.
Folha - Onde anda o teu pai?
Vagner - Recentemente, me telefonaram para avisar que ele é o atual técnico do União de Araras. Eu só respondi uma coisa: ah, é?
Folha - Você guarda boas lembranças de Londrina?
Vagner - Muitas. Do padre Gianni, que dava comida e roupas pra mim e pra minha família na Igreja Nossa Senhora de Fátima. Puxa, gostaria de revê-lo. Mais que ele, acho que só o Alexandre, meu irmão e meu pai de verdade. Me lembro da irmã Dolores. Dos meus amigos sinceros.
RAIO-X
Nome: Vagner Rogério Nunes
Idade: 25 anos (19/03/1973)
Altura: 1,78 m
Cidade onde nasceu: Bauru, São Paulo
Clubes em que jogou: Arapongas, Paulista de Jundiaí, União São João de Araras, Santos, Roma e Vasco
Títulos conquistados: Vice-campeão brasileiro de 95 pelo Santos e campeão da Taça Libertadores pelo Vasco em 98


