Uma vaca no campo...
A frase mais infeliz da semana, no futebol, é do técnico Vadão. Inconformado com a derrota do Atlético Paranaense, ele criticava seu time, publicamente: ''Se tivessemos feito uma falta, o Alessandro não teria marcado o gol.'' O Alessandro em causa é o atacante do outro Atlético, o Mineiro, que venceria a partida por 2 a 1. O desabafo é ou não é de preocupar? Se um técnico defende o anti-jogo, em entrevista coletiva, imaginemos, leitor, o que esse homem será capaz de dizer a seus jogadores, na próxima preleção, entre quatro paredes?
Entende-se, claramente, porque o futebol brasileiro é, disparado, o mais faltoso do mundo. Infelizmente, alguns treinadores não hesitam em fazer a cabeça do jogador pra destruir a jogada, custe o que custar. Um ombro luxado, uma canela lascada, uma boa rasteira tudo vale a pena se a ordem é não ter pena.
É certo que se a regra fosse menos compassiva e a arbitragem mais zelosa do ''fair play'', o técnico talvez dedicaria parte de seu tempo, ensinando o casca-grossa a disputar a bola, com um mínimo de correção e eficiência.
Na segunda rodada, o time do Criciúma já tinha feito mais de 100 faltas, em duas partidas. Uma cifra de envergonhar qualquer equipe que se diga de futebol. Todo mundo deplorou o comportamento anti-ético do time do Criciúma. Coincidência ou não, na partida seguinte, contra o São Paulo, além de jogar bem, o time catarinense fez poucas faltas. Vi a partida e fiquei feliz. O São Paulo penou pra empatar. O Criciúma chegou a merecer a vitória.
De duas, uma: ou o time do Criciúma aprendeu a jogar da noite pro dia, ou o técnico Edson Valandro, envergonhado, retirou de suas preleções a estúpida receita do pau-puro.
Nos velhos tempos, já havia faltas, mas nada comparável ao que se vê, no futebol moderno. É claro que sobrava espaço no campo. Com o advento do chamado futebol-força, ali pela metade dos anos 60, o corpo-a-corpo se acentou sensivelmente. O que antes seria um tranco, hoje, qualquer esbarrão é colisão, mesmo.
Não havia essa de carrinho por trás. Ninguém dava pontapés desvairados. O marcador que chegasse atropelando, grotescamente, o adversário, como se faz hoje, tomava um vaia unânime do estádio. Foi por uma dessas que, num jogo com o Botafogo, em Bogotá, o craque Di Stéfano avisou ao juiz, delicadamente, que ia embora. Não aguentava mais os botes alucinados do lateral alvinegro Arati. ''Tem uma vaca solta no campo''. Pegou o boné foi-se pro vestiário, são e salvo.
O anjo e a máquina
Em coluna recente, escrevi uma crônica aparentemente implacável sobre Rubens Barrichello. Não tenho um pingo de competência pra julgar um piloto de corrida. Rubinho não teria chegado à Ferrari se não tivesse habilidade, se não tivesse coragem. Por que, então, ele nos frustra tanto? Essa era o meu mote.
Tenho pra mim que o carro dele pega é justamente no plano insondável da alma. Rubinho exala uma candura que tem mais a ver com os anjos do que com os seres humanos. Mesmo na vitória, Rubinho estampa no rosto um ar pungente que me comove. O piloto de Fórmula 1 é, acima de tudo, um temerário. Pelo menos é o que me ocorre, quando vejo passar pela tela da tevê aquele cortejo de bólides incandescentes, a caminho do apocalipse.
Sempre que vejo uma corrida, me lembro da célebre reflexão de Chesterton: ''A aventura pode ser louca, mas o aventureiro deve ser lúcido''. Esta máxima é perfeita pra definir o que seja a Fórmula 1. Pois o nosso Rubinho pode ser lúcido, mas não me parece que seja um aventureiro.
Dizem os próprios pilotos que Rubinho é o caráter mais forte e a personalidade mais fraca da Fórmula 1. Se o diagnóstico é certo, está explicada a sina do rapaz: o risco não é feito de transparências. Pelo contrário, o perigo se esconde em enigmas. O piloto tem que ser uma esfinge. Ai de quem ousar decifrá-lo!
Rubinho que não me ouça, mas eu acho que, implacável como ela só, a máquina não aprecia almas cândidas. Se eu fosse ele, fechava mais o semblante. Cara feia, alma insondável.
É só.
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