A tempestade estava medonha! O vento sul de 40 a 80 km/h, o mar revolto e o espetáculo elétrico dos constantes raios deram a esta aventura um ponta pé digno das páginas de Almir Klink... Diga-se de passagem: o objetivo não era estabelecer recorde algum. Os três tripulantes estavam a trabalho, realizando um delivery – serviço que consiste em levar um barco de um lugar a outro – do luxuoso catamarã Saint Francis, de 44 pés, desde o balneário uruguaio de Piriápolis, vizinha de Punta del Este, até Ubatuba-SP, destino que posteriormente se estendeu até Vitória, no Espírito Santo.
No dia 20 de agosto, o velejador curitibano Abel Aguilar, representante do Saint Francis na América Latina, chegava na pequena cidade portuária de Piriápolis, a fim de pegar o veleiro e dar início à empreitada. ‘‘Queria aproveitar a frente fria vinda do Sul que estava para entrar, já que é a única maneira que se tem para subir à vela lá de baixo’’, explica Abel referindo-se ao fato de que o vento predominante na região vem do norte e impossibilita a navegação dos veleiros, que não tem outro remédio que esperar a entrada de uma próxima frente fria – que vem sempre do sul.
Feita a liberação burocrática do barco no porto uruguaio, a preocupação de Abel era preparar logo a embarcação, suprimentos, reunir os outros dois companheiros de viagem, o dono do barco e um marinheiro auxiliar, e embarcar antes que o porto fechasse por causa do mau tempo. Chovia muito.
Saíram às 22 horas, do dia 21 de agosto, com visibilidade de 5%, em consequência da chuva e uma tempestade elétrica daquelas, que se prolongou pelos seguintes quatro dias. ‘‘A previsão dizia que os ventos estavam entre 40 e 80 Km/h, só não se confirmava a direção. Saímos mesmo assim’’. A surpresa foi pior do que a esperada: navegaram a noite inteira com vento contra! Exatamente ao contrário do que a meteorologia previra... Trataram de avançar usando o motor.
Dia 22. ‘‘Impressionante a quantidade de raios, acho que não vai acabar nunca!’’, admirava-se Abel. Pelo menos o vento cedera um pouco. Desde as 5 da matina já navegavam apenas com as velas. O vento não se define, ora sopra de um lado, ora do outro. O marinheiro passa mal...
Nestes dias de tormenta, os tripulantes observaram um fato curioso. Os chamados carneirinhos, pequenas espumas brancas que se formam no mar mexido, brilhavam com uma intensa luz verde fosforescente, proporcionando um cenário fantástico e surreal. ‘‘Atribuo o fenômeno ao plâncton (microalgas), que armazenavam a luz dos constantes raios e refletiam por um longo espaço de tempo’’, relata Abel, navegador de considerável experiência, afirmando que nunca tinha visto nada igual. A noite no oceano ficou mágica. Os raios e as lanternas verdes dos carneiros eram vistas por todos os lados, até longe. Ficavam mais evidentes ainda quando as ondas lambiam o catamarã.
O Oceano Atlântico pode ter tempestades com ondas de até 20 metros sem aviso prévio. Chegando na altura da Barra de Rio Grande-RS, Abel desconfiou que todo esse temporal era sinal de uma frente fria que estava para entrar... Assim, resolveram ajustar o rumo para o abrigo. Encontravam-se a uns 100 quilômetros da costa. Estavam acompanhados por um navio e dois pesqueiros. Longe ainda, não conseguiam identificar a entrada. Todos seguiam o navio. Quinze minutos mais adiante o navio surpreende: dá meia volta e desiste.
Não deu outra, deixaram o veleiro à deriva, apostando na iniciativa de um dos pesqueiros em tomar a dianteira. Mas estes tiveram a mesma atitude. Pelo rádio confirmaram: ‘‘Nós também não somos daqui...’’ Neste intervalo, Abel localiza as bóias de entrada e resolve ser o guia. Ao aproximar-se, as previsões se confirmam:. entra um incrível vento de 90 Km/h, arrastando todo mundo. ‘‘Quase atropelamos a bóia’’, conta Abel.
Venceram o canal e passaram mais uma noite mal dormida no abrigo, com a preocupação de que o vento arraste a âncora... O temporal durou a noite toda, com direito a duas chuvas de granizo. Ainda bem que não estavam em alto mar. Como saldo da tempestade, um cabo da vela mestra quebrou e ao pedir um arame emprestado ao barco ao lado, descobriram que eram lituanos refugiados da Guerra da Lituania. Somavam oito tripulantes, entre engenheiros, médicos, todos com doutorado, navegando há sete anos pelo mundo em condições precárias. Sobreviviam através de doações e auxílio de yatch clubs e instituições portuárias.
‘‘Depois de muita correria estávamos navegando novamente’’, Abel preocupava-se com a instabilidade do tempo, almejando chegar até Laguna antes que o vento vire. Neste trecho não existe abrigo, se o vento vira, não importa se o barco encontra-se apenas a uma milha de Laguna, terá que voltar até Rio Grande... Felizmente não tiveram problema, prova superada. Passaram por Laguna sem paradas, resolveram colocar a vela balão para aumentar a velocidade em direção a São Paulo.
No dia 27 passaram a 200 quilômetros da Ilha do Mel, em alto-mar. Em Ilha Bela-SP, o tempo começou a melhorar. Finalmente o sol deu sinais de que ainda existe... para se ter uma idéia do tamanho da façanha, Joaquim, o marinheiro, pediu as contas em Ubatuba, litoral norte paulista. Não aguentou o tranco. Como o dono do barco já tinha desembarcado em Rio Grande, Rosane, sócia de Abel, viajou desde Curitiba, para ajudar a tocar o Saint Francis até Vitória. Vitória!! Passaram o resto das milhas curtindo o sol e este moderno catamarã de 44 pés, com quatro suítes, sala de estar, e uma ampla área de convés...
Mais informações sobre o Saint Francis, cursos de vela, comércio de barcos e equipamentos náuticos: Sailling International – 41 263-1647 ou www.catamarans.com.br

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