Uma lição dura de aprender
Uma lição dura de aprender
Até julho de 96, o técnico Mário Jorge Zagallo era uma espécie de unanimidade nacional. Mesmo aqueles que discordavam - e muitos ainda discordam - não encontravam nos números justificativas para as críticas. Mas as coisas começaram a mudar com a estréia do Brasil na Olimpíada de Atlanta. O próprio Zagallo contribuiu para isso ao prometer, com boa dose de arrogância, o único título que faltava para o futebol brasileiro.
O retrospecto, amplamente favorável, respaldava as declarações de Zagallo e o sonho da medalha olímpica nunca esteve tão próximo. Até a estréia contra a despretensiosa seleção do Japão, a Seleção Brasileira havia disputado 13 jogos, com 10 vitórias e apenas uma derrota - para o México (2 a 0) na final da Copa de Ouro, nos Estados Unidos -, um acidente de percurso, segundo Zagallo.
Da coleção de vitórias, antes de Atlanta, fazia parte o título do Torneio Pré-Olímpico, em Mar del Plata, na Argentina, com vitórias expressivas sobre Peru, Paraguai, Bolívia e Uruguai, e um empate com os donos da casa, na partida final.
Mas o sonho olímpico acabou transformado em pesadelo. Logo na estréia, no Sanford Stadium, em Athens, Georgia, o time de Zagallo, com estrelas do porte de Ronaldinho, Roberto Carlos, Rivaldo, Juninho e Bebeto, perdeu para o modesto Japão por 1 a 0. Um sinal de alerta, encoberto logo depois pelas vitórias sobre a Hungria (3 a 1) e Nigéria (1 a 0). Nas quartas-de-final, um goleada sobre Gana (4 a 2) levou o Brasil para as semifinais.
A surpresa, porém, estava reservada para dois dias depois. Quase 80 mil torcedores lotaram o Sanford Stadium para ver Brasil e Nigéria. Um gol de Flávio Conceição no primeiro minuto de jogo deu a impressão de uma vitória fácil sobre os africanos. Nem o gol contra, marcado por Roberto Carlos, aos 20 minutos, pareceu preocupar Zagallo ou os seus comandados. Bebeto, aos 28 minutos e, novamente, Flávio Conceição, aos 38 minutos, selaram a vitória brasileira, por 3 a 1, no primeiro tempo.
Era tudo o que o Brasil de Zagallo precisava na Olimpíada de Atlanta. Faltavam 12 minutos para o final do jogo, quando o atacante Kanu, o grande nome do futebol olímpico de 96, diminuiu. Com o time brasileiro recuado, tentando garantir o placar, a Nigéria cresceu em campo e no último minuto, o mesmo Kanu marcou o terceiro gol africano.
O empate arrasou a Seleção Brasileira e levou o jogo para a prorrogação, por morte súbita. Aos 4 minutos do tempo extra, de novo Kanu marcou o gol da vitória africana, adiando mais uma vez o tão esperado ouro olímpico. Não há mais adversário fácil no futebol mundial, definiu Zagallo, logo após o jogo.
Que isso (a derrota) sirva de lição, disse o técnico. Quase um ano e meio depois, ao ser eliminado da Copa Ouro, na derrota por 1 a 0 para os Estados Unidos, Zagallo repetiu o comentário e a advertência. Prova de que a lição não foi aprendida.





