Uma lenda que não foi além de um vice
Rio de Janeiro - Mas futebol foi o que não houve no Estádio Walkdorfl. Houve briga em campo, Humberto Tozzi e Nílton Santos foram expulsos, Boszik também. O técnico Zezé Moreira deu uma chuteirada na cabeça de Gusztav Sebes, ministro dos esportes, espécie de dono time húngaro. O jogo, ali batizado como ''a batalha de Berna'', terminou com a eliminação do Brasil: 4 a 2.
As inevitáveis desculpas se sucederam. Mário Vianna denunciaria o complô comunista que levara o árbitro inglês mister Ellis a favorecer a Hungria. Não podendo provar, foi expulso do quadro de árbitros da Fifa.
De João Lyra Filho, chefe da delegação (que passara a maior parte da Copa fazendo compras pela Europa), era natural esperar. Pois sua explicação para a atuação de Ellis, que na verdade não apitara mal, foi ainda mais delirante: depois da derrota de sua Inglaterra para o Uruguai, o árbitro decidira vingar-se de todo sul-americano que lhe aparecesse pela frente. Como o primeiro fora o Brasil...
Em nenhum momento passou pela cabeça dos brasileiros que a Copa de 1954 poderia ter sido ganha pela inteligência, mais do que pelas patriotadas. Foi o que aconteceu. O técnico alemão Sepp Herberger, vivo, tarimbado, inteligente, não achou que seria impossível seu país levar a taça, menos de dez anos depois de ter sido arrasado pela guerra. Escalou reservas no primeiro jogo com a Hungria, o dos 8 a 3, e seguiu para a final por outro caminho.
Naquele jogo, Puskas foi atingido no tornozelo por Liebrich, não enfrentou o Brasil e o Uruguai e só entrou na final no sacrifício: capitão da equipe naqueles quatro anos, tinha de ser ele a receber a taça de ouro. Mas quem o fez foi Fritz Walter. É até hoje a maior surpresa já registrada numa final de Copa do Mundo, uma Alemanha até então sem expressão no futebol vencendo a ''invencível'' Hungria por 3 a 2, depois de estar perdendo por 2 a 0. O Brasil via de longe uma lenda chegar ao fim. (J.M./Agência O Globo)





