Londrina - Uma grande árvore à entrada da chácara revela a origem do nome. ''Foi o Luiz Ganassin que escolheu, o grupo queria alguma coisa ligada à agronomia, tinha este pé de jambolão aí e o Ganassin sugeriu o nome de Jambolão'', assinala Barbosa, logo corrigido por João Batista Simão, o ''João Bolão'' que, marcação serrada, desarma o presidente e contra-ataca, sempre esfregando a barriga saliente: ''Corrige aí, o nome da chácara não é Jambolão é João Bolão, eu mesmo, o grande craque do time, um bolão, daí o apelido João Bolão, entendeu?''
Atento à investida, Barbosa desfaz a jogada insinuante do companheiro e chuta de primeira: ''Pode ser craque, mas o maior goleador do time sou eu, está tudo registrado aí, pode olhar se quiser, é gol que não acaba mais!'' Enquanto os dois papudos troçam um com o outro, os jogadores dos dois times se preparam para entrar em campo. O adversário é o time da empresa Phisiomax, de Cambé.
Entre os sócios fundadores, o médico Wanderley Zanotto é outra exceção. Dario conta que o médico só foi aceito no grupo de agrônomos ''porque além de ser um cara legal, depois virou fazendeiro e aí ficou mais próximo da gente.'' Alguém lembra que o médico jogou no Corinthians Londrinense quando jovem. Foi o que bastou para se ouvir um desconfiado e irônico ''não sei não, acho que isso é papo, bom de bola era o irmão dele, o Né.'' O médico só ria, demonstrando grande satisfação de frequentar aquela roda desde o primeiro jogo.
Vendo o time entrar em campo, Lineu lembra com exagerada nostalgia: ''Nunca perdemos no campo da Sandoz, pra ganhar do nosso time tinha que estar iluminado! E olhe que até profissionais foram jogar lá, os caras ficavam nervosos, mas não adiantava.'' Atento à jogada imaginária do parceiro Leonil cai na real: ''Bem diferente de hoje... Hoje, quando perdemos muito, chamamos alguns velhos fregueses para recuperar o moral do time.''
O jogo vai começar. ''A gente joga com chuva ou sol, só não tem jogo se o adversário não vier'', destaca Barbosa, enquanto Leonil apita para começar a partida e vem sentar junto aos demais. ''Jogo aqui não tem juiz porque juiz ruim é pior do que sem juiz. Aqui, o jogador pediu a falta pára o jogo e não tem conversa, isto é, às vezes dá algum bate-boca, mas o jogo segue'', explica Rafael Figueiredo.
A bola rola no gramado. Do lado de fora, cervejas rolam goela abaixo. De copo na mão um dos sócios fundadores revela que quem falta à pelada de sábado, sem avisar, é multado em duas cervejas e não tem apelação. E as histórias vão se sucedendo fora do campo na mesma proporção em que os gols vão acontecendo dentro.
Um bate-boca no gramado e todos se voltam para Rafael Figueiredo. ''Com o Rafael não podia dar palpite ou pedir pra passar a bola que ele estrilava; se alguém chegava junto, mais duro, ele gritava - 'Não estou aqui pra isso!' - , arrancava a camisa e ia embora'', entrega Luiz Alberto Campos, para Figueiredo devolver de primeira: ''Futebol não é pra dar porrada, é pra quem sabe jogar. E não tem que pedir a bola não, se tá comigo eu sei o que fazer com ela, sei ou não sei, João?''
Um passe desses, na cara do gol, João não perde a chance: ''O único que podia pedir a bola pro Rafael era eu. Ele dizia: 'pra você eu passo porque você sabe o que fazer com ela', é ou não é Rafael?'' Enquanto os dois trocam confetes, uma substituição acontece no jogo. É o suficiente para o Dario lembrar de algo: ''O Leonil, quando era substituído, estrilava: 'Eu não vou sair, eu sou pioneiro, aqui é eu e mais sete, pode por no lugar de outro que eu não saio!' Estou mentindo, gente?''
O Jogo está chegando ao fim. Preparando a carne para o churrasco - ele é o churrasqueiro há 21 anos, desde que Ganassin, seu antecessor, temperou a carne com sal fino e ninguém conseguiu comer de tão salgada - Barbosa conta que a amizade e o respeito mútuo são as vigas mestras desta relação de quase três décadas que, curiosamente, se restringe ao futebol já que, entre eles, quase ninguém frequenta a casa um do outro. (A.T.)

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