Londrina - Ricardinho, Roger, Marcinho, Fernandão, Felipe, Araújo, Aloísio. No banco, Abel Braga, Paulo Autuori, Sebastião Lazaroni. Não é a relação de candidatos a estrelas do Campeonato Brasileiro, mas sim, alguns dos brasileiros que foram seduzidos pelos petrodólares e são as atrações no futebol do Catar. No meio deles, outro brasileiro, bem menos badalado e conhecido por aqui, virou estrela no país e hoje comanda o meio-campo da seleção local na caminhada para a inédita vaga em uma Copa do Mundo.
Aos 28 anos, o londrinense Fábio Montezine é titular absoluto da seleção catariana. Junto com o zagueiro brasileiro Marcone e o atacante uruguaio Sebastian, também naturalizados, ele vem fazendo um bom papel na briga. Montezine fez dois gols na primeira fase das Eliminatórias, ambos contra o Iraque. Nessa fase, o Catar eliminou a China e o próprio Iraque. Na segunda etapa, a seleção venceu apenas o Uzbequistão, caindo diante de Austrália e Japão, respectivamente, líder e vice do grupo.
As derrotas, porém, não tiraram do brasileiro a esperança de colocar um país sem nenhuma expressão no futebol na próxima Copa. ''Sabemos que não é fácil, mas temos um grupo muito forte. Nosso time ainda é inexperiente nas competições internacionais, mas estamos crescendo com o tempo'', afirmou o meia.
A esperança no país árabe é de que uma possível vaga na Copa da África desperte de vez a paixão do povo local pelo futebol. Os estádios já são modernos. O Al-Ahli, que está na Segunda Divisão, está construindo um estádio subterrâneo na capital Doha, com capacidade para 11 mil espectadores, devido às altas temperaturas. O estádio, apelidado de ''Laptop'', por seu formato, deverá ser inaugurado em 2010 e será um grande trunfo caso o Catar se candidate para sediar a Copa do Mundo de 2018.
Os times estão investindo em estrelas internacionais e, agora, falta somente o torcedor tomar gosto de vez. Até esta semana, seis dos dez times da liga catariana tinham técnicos brasileiros - Émerson Leão foi demitido do Al Sadd Club na quinta-feira. Todos os times contam com brazucas em seus elencos, que foram seduzidos pelos petrodólares. ''O futebol aqui não se compara à América do Sul, mas está crescendo muito. Nesta temporada, os clubes investiram muito em jogadores e comissão técnica'', contou Montezine. ''Pena que não cheguei agora'', brincou, se referindo ao aumento financeiro nas propostas feitas para seduzir os brasileiros.
Seleção
Montezine desembarcou no Catar em 2005 e está na sua terceira temporada por lá. Primeiro passou pelo Al-Arabi e agora defende o Umm Salal, junto com o zagueiro Nivaldo e o atacante Magno Alves, ex-Fluminense.
A regularidade fez com que o meia despertasse o interesse da seleção nacional desde sua primeira temporada no Catar. Porém, a possibilidade esbarrava em um dos requisitos para a convocação. ''Por lei, eram necessários dois anos de residência fixa (para conseguir a naturalização). Como me mantive jogando bem e o time em que eu estava me ajudou muito a manter o nível, recebi a proposta e aceitei'', revelou.
Titular absoluto, o meia se mostra satisfeito com a decisão. ''É uma honra (vestir a camisa da seleção do Catar), porque é a valorização do nosso trabalho. Ser convidado para defender uma seleção sendo originário de outro país é ainda mais responsabilidade. Por isso, sou grato ao Catar'', comentou Montezine, que já disputou dez partidas pela seleção local.
As convocações também são frutos da adaptação que teve em um lugar onde tudo é diferente: crenças, cultura, idioma, culinária e o calor, muito calor. A população é, na grande maioria, muçulmana. ''Mas todos respeitam os outros, nossas religiões e estilos de vida'', frisou o londrinense. Porém, não foi porque se adaptou fácil que ele deixou de pagar mico. ''Direto eu entro no vestiário gritando e dou de cara com os jogadores muçulmanos rezando (risos). Fico com cara de tonto, daí''.
O convívio com outros brasileiros também ajuda e muito na adaptação e a diminuir a saudade do Brasil. O torneio nacional mais parece um Campeonato Brasileiro alternativo, devido à quantidade de brazucas por lá. ''Somos bem ligados, pois são pessoas boas. Quando podemos, estamos juntos. A gente sempre se encontra, faz um churrasquinho para matar as saudades'', contou.
O que incomoda o meia, entretanto, é a falta de público nos estádios, que ficam vazios. ''O povo catariano nos trata muito bem. Adotou-nos como cidadãos catarianos. Eles gostam de futebol, mas não têm a cultura de ir ao estádio. São belas estruturas, mas poucos torcedores. O assédio nas ruas quase não existe a não ser pelos poucos que te param para conversar e tirar foto, o que acontece muito com as crianças'', finalizou Montezine.

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