Jogadores entraram com tarja preta nos braços e federação promete novas manifestações em defesa dos direitos da categoria
Jogadores entraram com tarja preta nos braços e federação promete novas manifestações em defesa dos direitos da categoria | Foto: Ricardo Chicarelli



O Brasil viveu nos últimos anos o reacender das manifestações populares motivadas, principalmente, pela indignação provocada pelos escândalos de corrupção, que vieram à tona com as revelações da operação Lava Jato, além da reivindicação de uma classe política mais honesta e transparente. Pelo segundo ano consecutivo, um presidente é alvo de inúmeros pedidos de impeachment e o futuro do País ainda é uma incógnita. Mesmo assim, o mundo do futebol parecer viver um jogo à parte, apesar da grande influência de jogadores e treinadores, figuras públicas vistas como modelos. Para agravar a situação, o próprio futebol convive com a corrupção e com os cartolas que utilizam a paixão dos torcedores como trampolim eleitoral. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) é o maior exemplo da necessidade de moralização da política, também no esporte. Por décadas, a entidade máxima do futebol foi dirigida por presidentes suspeitos de corrupção.
Hoje, os profissionais de futebol se caracterizaram por se ausentarem das principais discussões políticas do País e por estarem preocupados apenas com seus próprios interesses. O surgimento do Bom Senso FC, em 2013, é uma amostra desta realidade. Criado para melhorar as condições dos jogadores, o grupo perdeu força e está afastado das principais discussões da categoria apenas quatro anos após sua criação.
Atualmente, existem mais de 28 mil atletas profissionais registrados na CBF em 800 clubes. Deste total, 82% ganham até um salário mínimo e 15% recebem até R$ 5 mil. Os bem sucedidos da profissão são apenas 226 (0,8% da categoria), que tem salário superior a R$ 50 mil.
Para o sociólogo e colunista da FOLHA, Marco Rossi, a despolitização dos jogadores de futebol não é diferente do que acontece na sociedade brasileira e muitas vezes também é agravada pela falta de liberdade dentro dos clubes e das entidades que dirigem o futebol. "Assumir hoje uma posição não cai bem, faz mal para imagem e as pessoas podem entender mal. É muito mais fácil seguir o discurso dominante", avalia.
Rossi ressalta ainda que a origem social pobre da maioria dos nossos jogadores proporciona pouco acesso à cultura e informação e isso faz com que as discussões sobre política e cidadania fiquem fora da pauta. "A política não é levada como algo relevante e com desdobramentos na vida de todos. A formação leva apenas ao pensamento de construir uma carreira bem sucedida na Europa e ao acúmulo de riqueza", aponta. "Se alimenta sempre a perspectiva de chegar a um grande clube e não se engajar na causa. Esse sonho alimenta o sistema e em cima desta ilusão que o circuito funciona".
O técnico do LEC, Claudio Tencati, reconhece que a classe é realmente muito desunida e que será preciso uma mudança de postura de jogadores e treinadores em busca de melhorias para a categoria.
"É uma profissão muito egoísta e individualista, apesar de ser um jogo coletivo. Quando há interesses financeiro e direitos em jogo se defende o eu e não o nós. Isso fica claro também no trabalho do dia a dia nos clubes", afirma. "Poucos profissionais se envolvem em certas questões. Há poucas vozes no meio do futebol e isso também atinge os treinadores".

Reforma trabalhista é alvo de protesto
Um protesto silencioso na primeira rodada do Campeonato Brasileiro das séries A e B chamou a atenção para as mudanças que a reforma trabalhista vai provocar na relação entre os jogadores e os clubes.
A maioria dos atletas utilizou uma faixa preta em um dos braços mostrando insatisfação contra dois projetos que tramitam no Congresso Nacional e que vão alterar a Lei Pelé: a Lei Geral do Futebol, na Câmara Federal, e a Lei Geral do Desporto, no Senado.
As mudanças que mais desagradam a classe são o parcelamento das férias em dois períodos, o descanso semanal remunerado em etapas de 12 horas, mudança do Direito de Arena, transformação do contrato de celetista para prestador de serviços e a indenização de apenas 10% do salário previsto até o fim do contrato, em caso de rompimento de vínculo sem justa causa.
"Esta é a questão mais grave e que vai atingir diretamente os profissionais mais necessitados. Hoje, os clubes têm que pagar 100% do valor do contrato e quando o rompimento é pelo lado do jogador a multa chega a duas mil vezes o valor do salário", alerta o presidente da Federação Nacional de Atletas Profissionais de Futebol (Fenapaf), Felipe Augusto Leite.
De acordo com o dirigente, foram três anos de debates sobre as mudanças propostas, mas que não foi possível avançar na discussão com o governo federal. A Fenapaf promete novas manifestações caso as propostas que desagradem a categoria não sejam rediscutidas. "Da forma como está não vamos aceitar. Tentamos audiência com o presidente e também no Ministério do Esporte. Se não houver uma nova tomada de rumo, novos protestos vão acontecer", garante. (L.F.C)

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