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Londrina

VISÃO DE JOGO

m de leitura Atualizado em 17/04/2022, 17:43

Um apito, uma vida

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 18 de abril de 2022

Julio Oliveira
AUTOR autor do artigo

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Completar aniversário é celebrar história, e cada um tem a sua própria para dividir com familiares e seu meio. E cada história tem seu legado, independentemente de que raio atinja.   

Imagem ilustrativa da imagem Um apito, uma vida Imagem ilustrativa da imagem Um apito, uma vida
|  Foto: iStock
 

Não há história ruim. Há as mais difíceis, as menos apreciadas, as mais exaltadas, as menos conhecidas, mas todas são histórias de pessoas que ao longo da vida participaram de um universo profissional que impactaram muitas vidas e, consequentemente, deixaram seu legado. No esporte, os ídolos têm esse papel. Eles criam modismos, tendências, hábitos, gestos, comportamentos e até linguagem que marcam época e trajetória.   

Mas há segmentos em que outros profissionais também constroem caminhadas relevantes, sendo ícones, personalidades ou referências deixando legados com trabalho, vanguardismo e profissionalismo. Ainda no esporte, há o exemplo dos técnicos com menos protagonismo que os jogadores e são revolucionários, mudam a história, mas não se tornam ídolos. Zagallo, Telê Santana, Parreira, Minelli, Scolari, Coutinho, Luxemburgo e outros deixaram contribuições fantásticas e não se tornaram ídolos no futebol, mas exemplos para a classe e estudiosos.   

Ainda no futebol podemos citar outros profissionais que foram fundamentais ao longo das últimas décadas para transformar conceitos, mudar rotas, valorizar a profissão, mas que foram muito mais “odiados” do que “amados” pelo grande público: os árbitros de futebol, por exemplo. Sim, o juiz. Não dá pra imaginar um esporte sem a presença do árbitro, qualquer que seja ele.   

Legado e orgulho se misturam, porque o legado pode gerar orgulho pela história construída e o orgulho da obra escrita deixa, naturalmente, um legado. O que é mais significativo depende do ângulo que se olha, participa ou recebe. Voltando ao árbitro de futebol, só os que também foram e são árbitros vão enxergar legado e orgulho. O juiz sempre foi e será o vilão do jogo. O culpado. O responsável. É cultural. E como entender que houve construção e contribuição de uma profissão tão negativada? Mas, há. E muito.   

Hoje os árbitros são mais protegidos por câmeras de estádios e TV, quando discriminados e ameaçados conseguem fazer sanções chegarem aos agressores. Mais segurança e punição também é fruto de cobranças e exigências daqueles que sofreram no passado.   

Meu pai foi árbitro de futebol. Do tempo em que o alambrado ficava a poucos metros do campo; do tempo em que passava no meio do torcedor para chegar e sair de um estádio; do tempo que a primeira vaia sempre era para a arbitragem já como julgamento; do tempo que tinha que sair escoltado pela polícia quando o time da casa perdia.   

Hoje meu pai completa aniversário e celebra também uma vida dedicada ao futebol. Rompeu preconceitos e quebrou paradigmas de uma profissão tão hostilizada, mesmo todos entendendo sua necessidade e importância. Se não deixou legado às gerações seguintes, deixou para família. Deixou a transparência na condução de uma carreira de erros e acertos, mas que sempre procurou o caminho da integridade. Não importa o tamanho da popularidade de um ídolo, entendendo que ídolo é aquele que transforma nossa história pela proximidade e afetividade, e que legado pode ser para uma nação, geração, humanidade ou somente uma família.   

Julio Oliveira é jornalista e locutor esportivo da TV Globo

A opinião do colunista não reflete, necessariamente, a da Folha de Londrina