Josoé de CarvalhoMediúnicoMiguita: ‘‘Solução? Só se o Chico Xavier chamar o Jaci Scaff’’Entre as pessoas que conhecem bem a estrutura do Londrina está o chefe do departamento médico, Luiz Carlos Miguita, que há mais de duas décadas vem prestando gratuitamente serviços ao clube. Ele é o escolhido pela Folha para opinar hoje sobre a crise com o Tubarão. E utiliza termos médicos para diagnosticar e definir a situação do clube.
FOLHA - O Londrina está ameaçado de morrer?
MIGUITA - Eu diria que o Londrina está na UTI, com longa permanência. E meio desenganado. Não há como negar que o clube está gravemente doente e já não depende só dele. Na medicina, a gente costuma dizer que um paciente nesta situação está com a ‘última medicação’. Mas uma boa equipe de pessoas responsáveis pode tirar o Tubarão do hospital.
FOLHA - E o que levou o Londrina a esta situação?
MIGUITA - Todos os clubes que hoje estão em boa situação é porque têm patrimônio forte, quadro social grande e investimentos de vulto nas categorias de base. O Londrina teve chance de ser assim, no final dos anos 70 e no começo dos anos 80, mas não aproveitou. Muitos títulos foram vendidos, mas o dinheiro foi todo gasto no futebol. Não houve qualquer investimento no futuro.
FOLHA - O Londrina foi roubado por alguns dirigentes?
MIGUITA - Eu acho que não. Na verdade, teve muita gente que tirou proveito pessoal ou profissional, às vezes até involuntariamente, do fato de estar trabalhando pelo Londrina. Comigo mesmo ocorreu isto. O Londrina ajudou a minha imagem, no começo de carreira. Mas não acredito que alguém tenha roubado. Acho que o ressarcimento de dinheiro colocado no clube através de passes de jogadores é que deve ter gerado todas estas especulações. Na verdade, ao longo dos anos, eu só vi gente botando dinheiro no Londrina. Nunca vi alguém tirando.
FOLHA - O senhor se afastou dos estádios. Por quê?
MIGUITA - Hoje eu pratico um esporte (o golfe) que me toma grande parte dos finais de semana. E também me senti desestimulado por todos estes fatos que têm agitado a vida do clube. O próprio departamento médico foi desestimulado. Até pouco tempo, o DM era muito respeitado e havia promessas de investimento no setor. Porém, na última administração (gestão Marcelo Caldarelli) esse respeito desapareceu. Houve jogo em que o time nem médico no banco tinha. Foi um desestímulo total. Um outro aspecto tem me afastado dos estádios. Quero um time com profissionais formados aqui. A medicina londrinense, por exemplo, só é tão forte porque a maioria de seus profissionais foram formados na cidade.
FOLHA - O senhor acha que os londrinenses gostam de futebol?
MIGUITA - Gostam sim, mas só se sentirão estimulados se houver estrutura. Foi assim em 80 e 81. Existem chácaras e campos de peladas por toda a cidade. E quem gosta de jogar, gosta também de torcer.
FOLHA - O senhor compraria ações se o Londrina se transformasse numa empresa?
MIGUITA - Se houver credibilidade, todo mundo compra. Traz para Londrina empresas sérias, como a Fiorentina, o Barcelona ou o Milan, e vê se as pessoas não compram as suas ações. Em termos de futebol, os olhos do mundo estão voltados para o Brasil. Até os japoneses, que são mais desconfiados, investem com força no futebol brasileiro.
FOLHA - A SAL ajudou o futebol londrinense?
MIGUITA - A SAL ajuda a manter um time, mas não um clube. Para se consolidar, teria que assumir também o clube.
FOLHA - A SAL deve pagar as dívidas trabalhistas do clube?
MIGUITA - Não acho justo que a SAL tenha que pagar. Mas quem vai pagar?
FOLHA - O senhor é a favor de uma auditoria completa no Londrina?
MIGUITA - Não acho que uma auditoria possa ajudar. Vamos achar coisas de 20 anos atrás, e quem vai pagar esse tipo de prejuízo? O Londrina precisa contratar é uma empresa de planejamento e marketing. Achar soluções é muito mais importante que achar problemas.
FOLHA - E o que fazer para tirar o Londrina do sufoco atual?
MIGUITA - Só se o Chico Xavier chamar o Jaci Scaff e outros grandes dirigentes que já se foram. Mas temos que lembrar que os grandes países foram aqueles que enfrentaram maiores problemas, como Alemanha, Japão e tantos outros. Continuo achando que a saída está no planejamento. O Londrina é um bom produto, está sempre aparecendo com destaque nos jornais, no rádio e na televisão. O que falta é saber explorar todo esse marketing.

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