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Londrina

VISÃO DE JOGO

m de leitura Atualizado em 28/03/2022, 15:30

Tubarão: azul, branco e preto

Uma cor não define um coração e nem uma história. Mas ela discrimina. E isso é crime

PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 28 de março de 2022

Julio Oliveira
AUTOR autor do artigo

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Se não existissem as cores o mundo seria muito chato, sem vida. Imagine tudo em preto, branco ou cinza. Não haveria alegria, ousadia ou energia. Certeza de um mundo mais lento e até menos criativo. As cores dão mais que vida, seja um ambiente interno ou externo, roupas e objetos. As cores ajudam a entender personalidades. 

Lateral Samuel Santos foi alvo de injúria racial por parte de um torcedor do Athletico em jogo pelas semifinais do Paranaense Lateral Samuel Santos foi alvo de injúria racial por parte de um torcedor do Athletico em jogo pelas semifinais do Paranaense
Lateral Samuel Santos foi alvo de injúria racial por parte de um torcedor do Athletico em jogo pelas semifinais do Paranaense |  Foto: Ricardo Chicarelli/LEC
 

Mas para utilizar e conviver ao mesmo tempo com diferentes cores também é preciso equilíbrio para que haja harmonia. O mais claro com o mais escuro, o tom sobre tom ou opostos criando contrastes especiais. Não há a mais especial, a mais bonita, a mais relevante. Há diversas e infinitas combinações e as preferências são de cada pessoa que elege suas preferências e aí, sim, define para si a mais relevante.

Mas neste universo de cores, às vezes, gostamos ou não da mesma cor, dependendo da situação. Um vermelho pode servir para uma festa à fantasia, mas talvez não para trabalhar; o verde para o uniforme, mas nunca para um encontro especial; o amarelo para camisa do time do coração, mas nem pensar para um terno. Sempre surgirão sentimentos diferentes para situações diferentes com a mesma cor. E está tudo bem, porque a cor apenas define o tom, mas não o objeto. Há quem goste de uma peça preta, por exemplo, mas não de uma pessoa preta. 

Na última semana o lateral do Londrina, Samuel Santos, foi destaque por sua cor, que não deve ser a preferida pelo torcedor na arquibancada da Arena da Baixada que definiu o atleta do Tubarão pelo tom da pele.  O “preto” citado ali não foi de elogio, de força. Foi de discriminação. O xingamento classificou o lateral como algo negativo, desprezível, não aceitável naquele meio, sem qualidade, inferior etc. Uma pessoa preta sabe bem o peso desta palavra. 

Mas o quanto aquele “torcedor” conhece do Samuel Santos, da história, sofrimentos, desafios, dores e derrotas? O quanto aquele “torcedor” tem conhecimento das necessidades passadas até se tornar um atleta? O quanto sabe da angústia de viver longe da esposa e dos filhos para sobreviver e sustentá-los? Aquele “torcedor” não sabe nada disso. E não quer saber. Apenas definiu o jogador de um time rival pela cor da pele, que diminui o ser humano. E não é porque Samuel Santos foi chamado de “preto vera verão”, mas porque ninguém deve ser chamado por azul, amarelo, verde limão ou outra combinação qualquer. Uma cor não define um coração e nem uma história. Mas ela discrimina. E isso é crime.

Mas, e como esse mesmo “torcedor” qualifica os “pretos” do time Rubro-NEGRO que ele torce?  O Atlhetico teve no elenco ao longo dos tempos alguns “pretos” históricos: Djalma Santos, Assis e Washington (Casal 20), kléberson e tantos outros. No passado recente, Nikão foi ídolo. Hoje, Matheus Babi, Abner e John Mercado também são pretos.           

O Londrina acolheu Celsinho no ano passado, que foi brilhante se posicionando e denunciando. Agora, Samuel Santos também não se calou, protestou, registrou ocorrência e manteve o debato vivo. O Londrina, do azul e branco, também é preto. E todos devemos ser também. 

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