Osmani Costa
De Londrina
‘‘Nossa seleção sempre entra em campo para vencer. É lógico que o empate não foi um bom resultado. Então, é natural que os jogadores tenham sentimentos de tristeza, frustração e decepção. Estranho seria eles saírem sorrindo e felizes. Então, devemos tirar deste resultado algumas lições, alguns parâmetros para a reflexão do grupo. Para nos fortalecer, nos recuperar e alcançarmos as vitórias nos próximos jogos.’’
Esta análise foi feita na tarde de ontem pela psicóloga da Seleção Brasileira, Suzy Fleury, sobre o empate da equipe no jogo de estréia no Torneio Pré-Olímpico contra o Chile, anteontem à noite, no Estádio do Café.
Ela trabalha com o técnico Wanderley Luxemburgo desde 1993, passando com ele pelo Palmeiras, Santos e Corinthians. Na seleção, atua desde o segundo semestre de 98, logo após a derrota na final da Copa da França.
Para a psicóloga, que concedeu entrevista exclusiva à Folha, o grupo tem maturidade suficiente para dar a ‘‘volta por cima’’. Leia os principais trechos:
Folha – Como é desenvolvido o trabalho de psicologia dentro da seleção?
Suzy – De uma maneira bastante complexa, tanto que para buscarmos melhores resultados contamos com o auxílio dos centros de excelência das universidades federais de Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Eles fornecem os laboratórios para análises e avaliações de nosso material. Aqui na seleção trabalhamos de maneira individual (com cada jogador ou membro da comissão técnica) e coletiva, em pequenos ou grandes grupos, dependendo da necessidade e do objetivo de cada etapa. Às vezes as reuniões são solicitadas por nós, às vezes pelo próprio jogador ou jogadores.
Folha – Quais são os objetivos deste trabalho?
Suzy – Nós partimos de cada indivíduo para entendermos o grupo, para o desenho do mapa do nosso coletivo. O trabalho psicológico feito com cada jogador e com o grupo serve como suporte, como sustentação para o desenvolvimento do trabalho pela comissão técnica. Temos as fichas individuais que contam a vida de cada jogador, com suas características de personalidade, fatores de estresse etc. Parte disto é sigiloso, particular, e por uma questão ética não passamos à comissão técnica quando o jogador não permite.
Folha – Qual é a base teórica para o trabalho psicológico?
Suzy – É a inteligência emocional voltada para a competência, para o melhor rendimento da performance de cada atleta. O rendimento no futebol era visto antigamente como dependente exclusivo das habilidades físicas somadas às orientações técnico-táticas. Hoje, a base emocional, o preparo psicológico de cada jogador já faz parte deste todo. Tanto que, ano após ano, mais clubes contam com este trabalho especializado. Dos 20 jogadores aqui da seleção, oito contam com este apoio em seus clubes.
Folha – E qual é a filosofia aplicada com este grupo pré-olímpico?
Folha – A filosofia de trabalho está baseada em quatro pilares principais: união, disciplina, trabalho e profissionalismo. É com esta base que desenvolvemos o trabalho que passou a ser conhecido como ‘‘Projeto do Ouro Olímpico’’. Este é um sonho do País, dos brasileiros, e merece todo tipo de sacrifício. Quem está aqui sabe que é um privilegiado por estar tentando tornar realidade este sonho. Há o sacrifício da concentração, da distância dos familiares, das longas viagens. Somos como passarinhos presos numa gaiola de ouro. Se abrirem a porta, ninguém vai querer sair e ir embora.
Folha – Os jogadores ainda são jovens. Como eles reagem a este estresse da obrigação da vitória; como convivem com o assédio dos fãs e às relações comerciais impostas pelos clubes?
Suzy – A maturidade não é medida apenas pela idade. Podemos encontrar pessoas velhas e imaturas. Temos que criar um ambiente que minimize a pressão e o estresse; parte do nosso trabalho é neste sentido. Mas apesar da pouca idade – a média é de 21 anos –, os jogadores aqui reunidos já são adultos, têm experiências anteriores importantes em seus clubes e na própria seleção. Dos 20, 18 têm passagens anteriores pelas seleções Sub-17, Sub-20 e principal. Três atuam em clubes do exterior e outro – o Mozart – já jogou na Europa. Quase todos já disputaram e conquistaram títulos importantes nos seus times, onde também sofrem grandes pressões. A cobrança é uma realidade vivida pelo atleta. Apesar de ainda terem muito para aprender, estes jogadores já têm um grau de experiência e de maturidade emocional bastante bom. Eles sabem conviver com o ambiente do meio futebolístico com tranquilidade. Nosso trabalho ajuda a prepará-los para isto.
Folha – Psicologicamente a equipe está preparada para conquistar a vaga para Sydney?
Suzy – Estamos iniciando este trabalho. Estamos ainda no meio do caminho para esta vaga. Mas o grupo esta conscientizado sobre a importância desta conquista para cada um dos jogadores, para a seleção e para o País. A psicologia, a boa condição psicológica da cada jogar pode ajudar nesta conquista. Mas não a garante. Não se pode dominar totalmente as variáveis existentes num jogo de futebol. E é aí que está a beleza, a graça do jogo. Não existe equipe ou seleção no mundo capaz de ter controle sobre todas as variáveis, de ganhar todos os jogos e competições. Pode dominar um maior número delas, mas não todas ao mesmo tempo. E um bom preparo psicológico de cada jogador e membro da comissão técnica pode aumentar as possibilidades de vitória.
Folha – O novo ‘capitão’ do time, Alex, tem características e estilo diferentes do antigo, Denílson. O grupo sentiu esta mudança às vésperas do torneio Pré-Olímpico?
Suzy – A mudança ocorreu logo no início da fase de treinamentos, não repercutiu muito entre os jogadores. Até porque o comando prossegue sendo do treinador Wanderley Luxemburgo. E dentro de campo o Alex tem a ajuda de outros jogadores no comando do time. Apesar de ser menos expansivo e menos comunicador que o Denílson, o Alex reúne as quatro características básicas de líder que o credenciaram a assumir o papel de capitão. Ele tem visão clara sobre os objetivos da seleção; possui senso de realidade do ponto de partida e chegada da equipe; tem coragem para promover as correções e transformações necessárias no curso de uma partida; e possui credibilidade perante o grupo, que o reconhece e respeita como líder.

PERFIL
Nome: Suzy Fleury
Onde nasceu: Recife
Idade: 40 anos
Estado civil: Casada há 20 anos, mãe de um filho, Guilherme, de 19
Formação profissional: Iniciou curso de Psicologia na Universidade Federal de Santa Catarina e se formou em 1985 nas Faculdades Objetivo, de São Paulo
Experiência: Trabalha com a área esportiva desde o tempo de faculdade, quando iniciou pesquisa sobre a psicologia em 13 modalidades. Desenvolveu também pesquisa sobre ‘‘inteligência emocional’’ voltada para o atleta na equipe de basquete do Chicago Bulls, nos Estados Unidos.Susy Fleury afirma que o empate com o Chile dará parâmetros para a seleção se fortalecer e dar a volta por cima neste Pré
César AugustoCABEÇA FEITASusy Fleury: ‘Apesar de ainda terem muito para aprender, estes jogadores já têm um grau de experiência e de maturidade emocional bastante bom’

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