São Paulo - Enquanto Kaká tornava seus pés imortais na Calçada da Fama do Maracanã, na semana passada, o jogador que mais vestiu a camisa da seleção brasileira, até mesmo em Copas do Mundo, sonhava com a chance de vestir a camisa amarela pela última vez em uma partida de despedida, depois de 18 anos de convocações. Mas tem sérias dúvidas se receberá essa homenagem, ainda por causa do fracasso no Mundial de 2006, na Alemanha.

Aos 38 anos, Cafu está desencantado. Primeiro com a morte de seu pai e maior incentivador da carreira, Célio de Morais. Depois, com a falta de reconhecimento do seu amado Jardim Irene, que tornou conhecido no mundo inteiro ao levantar a Copa Fifa em 2002, no Japão.

A luta para criar a Fundação Cafu sem auxílio público, entre favelas da carente e violenta região do Capão Redondo - e levar saúde e educação a crianças -, foi esquecida na recente eleição. Cafu fez campanha para seu irmão. Tinha certeza de que o colocaria na Câmara Municipal para lutar pela esquecida área da periferia paulistana. Mas a população lhe virou as costas.

Agência Estado - Você ficou decepcionado com a falta de apoio da população do Jardim Irene ao seu irmão Maurício nas eleições?

Cafu - Sim, muito. Todos me conhecem na região do Capão Redondo e sabem que nós construímos a Fundação Cafu para as crianças carentes. Lutei para que meu irmão fosse eleito (vereador), porque ele iria brigar por novos projetos sociais para a região onde crescemos. Fiquei desiludido com a falta de visão das pessoas.

AE - A CBF não fala em jogo de despedida para você. É por causa do vexame na Copa de 2006?

Cafu - Olha, eu só sei que apenas alguns jogadores foram crucificados por uma série de erros que não foram só seus. Foi uma seleção que não deu certo em vários aspectos. A decepção da população foi imensa, mas nós, atletas, sofremos muito também. Me dói até hoje falar. Não queria que uma vida de tantas conquistas pela seleção ficasse marcada pela perda da Copa da Alemanha. A minha carreira não merece isso.

AE - Você ganhou duas Copas do Mundo, chegou a três finais, venceu Copa América, Copa das Confederações. Pelas suas contas são 152 partidas com a camisa da seleção (a CBF contabiliza 149). Não vai ter um jogo de despedida?

Cafu - Ah... É o que mais quero. Vestir a camisa da seleção pela última vez diante da torcida brasileira é um sonho. Só que não depende de mim. Sinceramente, não sei se vai acontecer. Não quero me iludir e nem pedir nada para ninguém. E vou ser bem sincero: se alguém acha que eu mereço alguma homenagem faça enquanto eu estiver vivo. Acho péssimo esperar a pessoa morrer para reconhecer o que ela fez. Isso eu dispenso.

AE - Você está treinando muito sozinho. Vai voltar a jogar?
Cafu - Eu sofri muito com a morte do meu pai, em junho. Ele foi a pessoa que mais brigou no mundo para que eu fosse jogador. Perdi grande parte da alegria que tinha ao entrar em campo e saber que ele estava me vendo. Minha mãe também está doente. Tudo está muito triste, mas eu ainda acredito que possa jogar a minha última temporada e me despedir do futebol. Tenho algumas propostas (Santos, Barueri e uma equipe dos Estados Unidos, além de sondagens de Palmeiras, Corinthians e Portuguesa). Antes vou jogar o Brasileiro de showbol pelo São Paulo.

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