Cabo Verde, 26 (AE) - O barco que desponta como grande favorito da Regata do Descobrimento tem uma tripulação animada e gozadora, que adora um uisquinho e uma pescaria. São cinco homens, com idade entre 30 e 57 anos, que têm outro ponto em comum: são todos da Ilha da Madeira. Por isso, acrescentaram uma pitada de patriotismo ao nome original do barco, que desde 92 se chama Marujo - Espírito da Madeira. (A reportagem da AE acompanha a regata, que parte terça-feira para Salvador, a bordo do Cisne Branco, da Marinha, com patrocínio do Banco Bandeirantes.) O complemento Espírito da Madeira foi acrescentado quando o veleiro participou da regata América 500, entre a Espanha e as Bahamas, em comemoração ao descobrimento do continente americano. Seis anos depois, em 98, participou da Regata da Atlântica, entre Portugal e Pernambuco.
E ganhou as duas. Ou seja, é a terceira vez que o Marujo participa de uma regata que cruza o Oceano Atlântico - um retrospecto respeitável.
Aos 45 anos de idade, o skeeper Gabriel Basílio, que participou das duas travessias, faz questão de frisar que nada está ganho - o Marujo tem dois pontos (um de cada perna vencida)
contra seis de Mariposa e Viva e 11 do Papa Léguas. Mas seu tom de voz não esconde otimismo e a auto-confiança: "O que usamos é experiência, vontade de vencer e velas novas." O veleiro tem 17 anos, mas as velas foram trocadas para essa regata, um investimento, segundo ele, de 3 mil contos (3 milhões de escudos
ou cerca de R$ 26 mil).
Basílio conta que usou essa experiência na segunda perna, entre Funchal e Mindelo, na única noite em que o vento realmente soprou com força: "Baixamos o balão porque não queríamos forçar muito o barco. E colocamos a asa de pombo." Balão é a vela usada para aproveitar bem o vento de popa, dando mais velocidade. Asa de pombo é a soma da genoa com a mestra. "Vale mais a pena perder uns segundos e andar na rota certa", ensina Basílio.
Mas toda essa ponderação é esquecida quando os tripulantes têm latas e garrafas pela frente. Após leve (bem leve) relutância para falar sobre esse assunto, os madeirenses contaram que nos seis dias da segunda perna, esvaziaram dez caixas de cerveja (240 latinhas) e seis garrafas de uísque - as tampinhas estão expostas na parte interna do Marujo.
Quanto ao vinho, é segredo. E eles possuem também um garrafão de aguardente feita com a sobra da uva usada para produzir vinho
que já está pela metade. Também pudera, porque é gostoso.
Pendurados no cabo de aço que sustenta o mastro, estão os rabos de dois atuns que Gabriel Basilío e sua turma pescaram no caminho para Mindelo, em Cabo Verde. E que viraram janta. Mas a pescaria só é permitida a uma velocidade mínima de 5,5 nós (10,2 km/h), por causa do atrito com a água, que segundo Basílio faz o veleiro perder velocidade.
Quando não estão pescando, bebendo, comendo ou manobrando velas, Gabriel e Horácio Basílio (irmão mais novo, de 30 anos), Gregório Oliveira, 57, Mário Pena, 41, e Élvio Pereira, 38, estão jogando baralho e contando piadas - anedotas, como eles dizem. De brasileiros?
Os marujos garantem que não, que as vítimas preferidas são os alentejanos (Alentejo é uma região de Portugal) e os profetas (da Ilha de Porto Santo, próxima à Madeira).
Hoje, no estádio Djak DMindelense, em Mindelo, o time do navio-escola português Sagres goleou a equipe do Cisne Branco por 4 a 2. Depois do amistoso, os brasileiros foram comer churrasco na praia da Laginha, com direito a muito axé, cerveja e banho de mar. Nesse início de primavera, o sol já é escaldante por aqui.