Tribunal de Justiça Desportiva e CBF enfrentam crise velada
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sábado, 09 de outubro de 1999
Por Silvio Barsetti 
Rio, 10 (AE) - As últimas decisões do Tribunal de Justiça Desportiva (TJD) têm contrariado alguns clubes e, por extensão, a direção da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), em especial o vice-presidente Alfredo Nunes, que deixou claro durante a semana suas divergências com o órgão, embora afimasse que não se recusaria a seguir as determinações da Justiça esportiva. "Eu vou cumpri-las, apesar de pensar de outra forma", disse. A reação de Alfredo não é isolada na CBF e uma crise velada começa a se desvendar na relação entre o tribunal e a entidade.
Outros dirigentes da CBF têm criticado algumas medidas do tribunal e não gostaram da suspensão imposta pelo TJD ao presidente da Comissão de árbitros da CBF, Armando Marques. Um deles, com bom trânsito no Departamento Jurídico, comentou que foi uma incoerência da Comissão Disciplinar do TJD punir o Vasco com a perda de mando de campo de apenas um jogo por causa dos incidentes na partida contra o Paraná, dia 19, em São Januário, e aplicar o dobro da pena ao Fluminense em decorrência da invasão de campo de tricolores logo na estréia do time na Série C, contra o Vila Nova-MG, em Nova Lima.
"A CBF nunca interferiu e não vai interferir nas decisões do tribunal", assegurou Alfredo. A Lei Pelé estabelece que o TJD seja composto por sete auditores: três indicados pela Ordem de Advogados do Brasil (OAB), outros três por associações ou sindicatos de clubes, árbitros e jogadores e o último pela CBF. Em assembléia, eles têm autonomia para escolher o presidente do tribunal, cujo mandato é de quatro anos. Essa estrutura começou a funcionar em 1998. Na ocasião, seu presidente acabou sendo o nome indicado pela direção da CBF: Luis Zveiter. Ele deixou depois o cargo, por problemas particulares, e o passou ao irmão Sérgio Zveiter.
Um dos impasses entre o TJD e a CBF está na decisão do tribunal de que o clube punido com perda de mando de campo tenha de jogar em outro Estado. Para Alfredo, a pena deveria resultar na transferência da partida para outra cidade. "O CBDF (Código Brasileiro Disciplinar de Futebol) é claro, a pena tem de ser cumprida em outro Estado", observou Sérgio.
Por causa de um tumulto generalizado no jogo Atlético-MG x Vitória, em 15 de setembro, o clube mineiro foi punido, preventivamente, com a perda do mando de campo por duas partidas. O Departamento Técnico da CBF, na quinta-feira, distribuiu nota, assinada por Alfredo, assegurando que o Atlético-MG já cumprira a pena nos jogos com Santos e Flamengo, transferidos do Independência para o Mineirão. No mesmo dia, no entanto, Sérgio disse que o Atlético-MG teria de disputar duas partidas fora de Minas Gerais.
Alfredo mais uma vez não gostou da decisão. "Não vejo choque de interpretações; eu não tenho de interpretar nada", prosseguiu. Na sexta-feira, Sérgio "esclareceu" que a medida só valeria para os clubes que ainda não tivessem cumprido a pena. Desta forma, Vasco e Atlético-MG ficaram isentos da punição.
Para acirrar a relação da CBF com o TJD, alguns clubes começam a pressionar a direção da entidade, com críticas a Sérgio. O Vasco reclamou muito quando seu jogo com o São Paulo, em 29 de setembro, passou de São Januário para o Maracanã. Mas seus dirigentes calaram diante da decisão da Comissão Disciplinar do TJD de ter impedido que o clube perdesse o ponto do empate com o Paraná, como determina o artigo 299 do CBDF. O Paraná recorreu da decisão e o caso vai ser julgado em instância final pelo TJD. O presidente do clube, Dilso Rossi, referiu-se ao tribunal como um "grande circo" e protestou à direção da CBF. Recebeu o apoio de Coritiba e Atlético-PR.
O Atlético-MG, por intermédio de seu Departamento Jurídico, considerou uma arbitrariedade do TJD a negativa de um efeito suspensivo solicitado pelo clube no tribunal para garantir a presença do jogador Galván na rodada do fim de semana. Ele sofreu suspensão preventiva de 30 dias por causa do envolvimento nos distúrbios da partida contra o Vitória, e depois recebeu suspensão de quatro jogos no julgamento da Comissão Disciplinar.
Essa situação pode, a curto prazo, criar um problema político para o presidente Ricardo Teixeira, reeleito na CBF em julho com o voto das federações e dos clubes da Primeira Divisão.


