‘SÍNDROME DO VICE’ Três grandes equipes param no ‘quase’ Ilustração: Ivo AkioSão Paulo, Cruzeiro e Vasco fazem boas campanhas mas não conseguem o título Agência Estado De São Paulo Num País em que ser vice-campeão e último colocado significa quase a mesma coisa, as torcidas de três grandes clubes brasileiros têm tido motivos de sobra para lamentar, nos dois últimos anos. Pois a segunda colocação, essa condição entre o tudo e o nada, é o máximo a que São Paulo, Vasco e Cruzeiro têm conseguido chegar. Equipes tradicionais de três centros importantes do futebol do Brasil, todas com o título sul-americano no currículo (os são-paulinos já foram até bicampeões mundiais), São Paulo, Vasco e Cruzeiro têm feito grandes campanhas nas fases preliminares das competições que disputam. Mas, quando chegam às semifinais, são atropelados pela síndrome do fracasso. Muitas vezes, o trio até passa para a decisão. Mas, uma vez nela, a síndrome do vice faz-se presente. O quase impõe novamente o seu limite. Tricolores (bicampeões da Taça Libertadores da América em 1992/93), vascaínos (vencedores em 98) e cruzeirenses (bi em 76 e 97) trocam de jogadores – quando não também de técnicos –, perdem-se em explicações, armam-se para nova tentativa e entram como forças na competição seguinte. Tudo para alegrar seus fãs por algum tempo. A síndrome do vice – ou do quase – é um adversário difícil de ser transposto. No Vasco, ninguém admite que o clube vem ganhando a fama de ser o ‘rei’ dos vices. Curiosamente, o clube é dirigido na prática por um vice-presidente, Eurico Miranda, que faz questão de mostrar seu poder em público. Ele repele com firmeza a gozação dos demais torcedores cariocas. ‘‘Prefiro chegar à final de todas as competições a ser eliminado no meio do caminho’’, declarou. Segundo Eurico, o Torneio Rio-São Paulo seria monótono e desmotivado sem a presença do Vasco. ‘‘As finais seriam disputadas somente pelos paulistas’’, declarou. ‘‘Os cariocas ficariam assistindo a tudo pela TV.’’ O Vasco é o maior vice-campeão da história do Rio-São Paulo: foram seis ‘‘títulos de vice’’. Nas últimas competições, a equipe ganhou notoriedade pelas belas campanhas, que, no entanto, não resultaram em conquistas. Em 1998, perdeu o título mundial interclubes para o Real Madrid. Este ano, sofreu derrota nos pênaltis para o Corinthians na decisão do 1º Campeonato Mundial de Clubes, no Maracanã. Ainda em 1999, Eurico ironizou durante meses os concorrentes no Campeonato Carioca. Disse que a disputa seria pelo segundo lugar, ‘‘pois o Vasco era o campeão por antecipação’’. No fim, deu Flamengo. A partir de então, Eurico passou a hostilizar o maior rival vascaíno no Rio, lembrando que o Flamengo estaria ausente do Mundial de Clubes. Os jogadores do São Paulo quebram a cabeça para encontrar uma explicação para as derrotas nas fases finais das competições que a equipe disputa, mas raramente a encontram. Uns chegam a ficar irritados com as perguntas a respeito, outros são diplomáticos, mas a verdade é que ninguém mais aguenta nadar e sempre morrer na praia. ‘‘Perdemos de grandes equipes e, na final, apenas um pode ganhar’’, comenta o goleiro Rogério Ceni. ‘‘Se o time chegou, teve méritos, mas só um ganha’’, diz Levir Culpi.’’ Em 99, o São Paulo passou perto de várias conquistas, mas não conseguiu ganhar nenhuma. Tudo começou na semifinal do Rio-São Paulo. Depois de boa campanha e da vitória sobre o Vasco por 3 a 2, em pleno Maracanã, todos davam como certa a ida à decisão. Mas, no Morumbi, a equipe carioca venceu por 3 a 1. Em seguida, ocorreu o mesmo na Copa do Brasil, contra o Botafogo-RJ, e no Paulista, diante do Corinthians. A equipe fez a melhor campanha, mas bastou perder um jogo para o time do Parque São Jorge, na semifinal, para ser eliminada. No fim do ano, outra decepção, a queda no Brasileiro, também contra o Corinthians. E, em 2000, a situação parece continuar igual, com a eliminação do Rio-São Paulo pelo Vasco na semifinal. ‘‘Sempre passamos pelas fases mais díficeis, mas, depois, tropeçamos’’, lamenta Souza. ‘‘Não aguentamos mais a situação e vamos fazer de tudo para que ela acabe no Paulista’’, desabafa Marcelinho. O Cruzeiro chegou, quarta-feira à noite, ao ser derrotado pelo América-MG por 2 a 1, no Mineirão, na decisão da Sul-Minas, a seu quinto vice-campeonato em competições importantes desde 1998, dando sequência a uma síndrome na Toca da Raposa. Há dois anos, sob o comando de Levir Culpi, em quatro finais – Copa do Brasil, Campeonato Mineiro, Campeonato Brasileiro e Copa Mercosul –, o time ficou apenas com o título estadual. Em 99, o Cruzeiro fracassou no Mineiro, ficando em terceiro lugar. As únicas conquistas foram nas inexpressivas Copa dos Campeões de Minas, diante do Atlético-MG, América-MG e Vila Nova, e Centro-Oeste, batendo um único adversário, o Vila Nova-GO. Desclassificado do Brasileiro nas quartas-de-final, pelo maior rival, decidiu a seletiva da Taça Libertadores da América, já sob o comando de Paulo Autuori, mas parou em outro Atlético, o do Paraná. Para o vice-presidente Alvimar Perrella, a síndrome do vice do Cruzeiro, que tem investido pesado em contratações nas últimas temporadas – o grupo atual, por exemplo, custou R$ 15 milhões –, deve ser atribuída à falta de sorte. Citou o caso do jogo de quarta, em que o time teria até feito por merecer o título, com ótima atuação no primeiro tempo. Apesar da nova frustração, Autuori está mantido. Os dirigentes entendem que, mesmo com os fracassos seguidos, ele tem feito bom trabalho e a equipe está no caminho certo para obter sucesso na Copa do Brasil, em que estreará quinta-feira, contra o Gama, e no Estadual.

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