Johannesburgo - Ao mesmo tempo em que neutralizava a desconfiança alheia, Dunga se indispunha com uma parcela da imprensa - foi assim por mais de três anos - e pessoas de prestígio na CBF. A primeira desavença pública ocorreu na Granja Comary, a concentração da seleção. Irritado por causa da proximidade de fotógrafos que queriam registrar seu encontro com torcedores, ao final de um treino, Dunga chamou a atenção, com rispidez, do coronel Castelo Branco, o então chefe de segurança da CBF. A partir desse episódio, Branco se afastou. No rastro do fogo-cruzado estabelecido por Dunga dentro dos limites da seleção, houve atritos dele com o médico José Luiz Runco, o supervisor Americo Faria e o diretor de Comunicação da CBF, Rodrigo Paiva.
O Brasil seguia bem nas Eliminatórias para o Mundial, apesar de uma derrota inesperada contra o Paraguai, e isso bastava para Dunga se manter na seleção. A eliminação do time nos Jogos de Pequim, em 2008, incomodou a direção da CBF, mas o presidente Ricardo Teixeira preferiu ser pragmático. ''O que interessa é a classificação para a Copa'', dizia. Na volta da Ásia, Dunga recebeu vaias dos cariocas em dois empates sem gols - contra Bolívia e Colômbia - e passou a ser mais questionado, mas logo o time se reencontrou na competição.
O título da Copa das Confederações, em 2009, e o primeiro lugar nas Eliminatórias fecharam um ciclo, idêntico ao de Carlos Alberto Parreira antes do Mundial de 2006. Dunga chegaria finalmente à África do Sul, 40 dias atrás, com um ''grupo fechado''. Deu importância exagerada a quem o criticou por ter deixado de convocar jogadores talentosos como Ronaldinho Gaúcho, Paulo Henrique Ganso e Neymar e adotou conduta desafiadora nas entrevistas. Por várias vezes, buscou o confronto com a imprensa, num ritual assimilado por alguns atletas.
Por vontade de Dunga, a seleção ficou enclausurada num hotel de Johannesburgo. Até o contato com parentes era limitado. O técnico tinha de saber de tudo o que se passava ali - as mensagens postadas na internet, o que escreviam no Twitter, com quem conversavam ao telefone - e não admitia interferência. Nos últimos dias, a cada vitória, ele manifestava a convicção de que o ''grupo fechado'' teria condições de conquistar o título. Na sexta-feira, após falhas individuais, um erro grosseiro de Felipe Melo e a ausência de suplentes à altura, o técnico perdeu o controle da seleção que um dia ele imaginou poderosa e autossuficiente e viu ruir o sonho do hexacampeonato. (S.B./A.E.)

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