Tragédia abre debate: como o esporte brasileiro cuida da base?
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sábado, 16 de fevereiro de 2019
Vítor Ogawa<br>Reportagem Local 

O incêndio no Centro de Treinamentos Ninho do Urubu, do Flamengo, que matou dez atletas das categorias de base do clube no último dia 8, acendeu uma luz de alerta sobre as condições a que são submetidos os jovens que sonham fazer carreira no futebol.
Embora a situação no CT flamenguista tenha sido de longe a mais grave, maus-tratos são comuns em alojamentos por todo o Brasil. O ex-goleiro do Flamengo Getúlio Vargas começou a publicar em seu Instagram imagens que mostram más condições de transporte e dormitórios para jogadores de categorias de base, e em poucos dias recebeu mais de 200 fotos.
Em 2011, o Ministério Público em Santos (SP) ajuizou uma ação civil pública contra a Portuguesa Santista e o então presidente por alojar jovens em situação precária, com mobiliário em péssimo estado e falta de limpeza e higiene em todos os cômodos. Segundo os relatos, 12 meninos de 14 a 16 anos tinham que dormir em três colchonetes de casal em uma quitinete de 40 metros quadrados. Em 2017, a Justiça de São José do Rio Preto (SP) determinou a liberação de atletas do América local do alojamento do clube e a volta para suas famílias também por problemas nas acomodações.
No mesmo ano, o MP do Paraná denunciou que as instalações do Sport Club Campo Mourão não eram adequadas para treinos ou alojamento dos atletas (más condições de higiene e alimentação), não tinham equipe de profissionais com habilitação técnica para realizar o serviço ou rotina de treinamento de acordo com promessas feitas aos jovens. Na época, o presidente, a comissão técnica e a diretoria foram denunciados por organização criminosa, estelionato e maus-tratos.
Dirceu Vivi, pai do atleta Wesley, de 17 anos, que treina na escolinha do Londrina Esporte Clube, disse que o episódio do incêndio no Rio de Janeiro aproximou famílias de jogadores com idades parecidas. "Os garotos daqui conheciam muitos deles, por terem participado de competições juntos. É uma situação complexa, difícil de mensurar a dor. Só um pai para saber o quanto isso dói", comentou.
Segundo o promotor Murillo José Digiácomo, do MP do Paraná, a questão vai além de avaliar apenas os alojamentos. "É uma situação complicada. Muitos são privados de se encontrar com seus pais e familiares. Ao mesmo tempo em que há a expectativa do jogador de se tornar profissional, isso só se torna realidade para uma minoria. Como ficam aqueles que são levados a esses espaços e acabam se lesionando, ou são reprovados nas peneiras? Isso pode refletir até no desempenho escolar", destacou.
Ele explicou que, por este motivo, o Cedca/PR (Conselho Estadual dos Direitos da Criança e do Adolescente do Estado do Paraná) publicou a resolução nº 004/2011, que determina que a responsabilidade de fiscalização cabe ao CMDCA (Conselho Municipal da Criança e do Adolescente) de cada município, não só dos alojamentos, mas de todas as diretrizes básicas para a prática esportiva. Muitos itens dessa resolução coincidem com as exigências para a obtenção do certificado de clube formador da CBF.
Em Londrina, a presidente do CMDCA, Rejane Romagnoli Tavares Aragão, afirmou que o conselho local ainda não implementou essa regulamentação no município, o que deve acontecer na próxima reunião. "Está como prioridade. Já redigimos e só falta a aprovação junto ao conselho", relatou. "Queremos aprovar algo que seja viável, que todos os clubes se inscrevam com a gente para que a gente faça essa fiscalização. O problema é que temos mais de 30 alojamentos em Londrina, de várias modalidades esportivas, e muitos deles não estão inscritos junto ao nosso conselho", afirmou. Aragão prometeu que em 15 dias essa fiscalização será realizada.
Bombeiros fiscalizam alojamentos em Londrina


Na semana seguinte à tragédia no Ninho do Urubu, uma verdadeira onda de fiscalização varreu CTs pelo Brasil. No Paraná, o comando do Corpo de Bombeiros pediu às unidades operacionais que realizassem vistorias nos alojamentos de todos os centros de treinamento do Estado. Segundo o capitão Renê Bortolassi, do Corpo de Bombeiros, os espaços que possuem irregularidades receberiam autos de infração para a orientação e adequação. Até o fechamento da reportagem, as fiscalizações estavam em andamento e ainda não havia um relatório de quantas autuações haviam sido feitas. "Até o momento, não temos nenhum local com grandes irregularidades, a ponto de exigir a interdição do espaço ou evacuação do local", destacou.
A reportagem da FOLHA visitou dois alojamentos em Londrina. O primeiro foi o do PSTC, cujo time profissional joga em Cornélio Procópio (Norte Pioneiro), mas cujas categorias de base treinam em Londrina. O local passou por reforma recentemente e teve toda a instalação elétrica revisada. Possui dormitórios limpos, saídas de emergência e extintores de incêndio com a data de validade em dia, além de ser monitorado por câmeras de segurança. O presidente do clube, Mário Iramina, afirmou que procura seguir as regras e os padrões de segurança. "A gente faz uma reforma geral nos períodos de férias, anualmente. Independentemente de vigilância, quem tem que ter preocupação com a segurança somos nós, dirigentes, e temos a responsabilidade de cuidar deles (atletas)", disse o dirigente.
A reportagem também pediu para visitar o alojamento da SM Sports, empresa gestora do futebol do LEC, mas a diretoria negou a solicitação. "O clube não gostaria de se indispor com o Flamengo em um momento tão difícil como este", justificou em comunicado a assessoria de imprensa, que também apontou que o Londrina e o clube carioca são parceiros.
Já o presidente do Londrina Esporte Clube, Claudio Canuto, recebeu a FOLHA no alojamento sob as arquibancadas do estádio VGD (Vitorino Gonçalves Dias). A reportagem chegou no momento em que os bombeiros estavam inspecionando o local. O que pôde ser visto foi um alojamento bem limpo, organizado e com os extintores em dia. Segundo o ex-goleiro Francisco Alencar, coordenador das categorias de base do LEC, antes da fiscalização acompanhada pela FOLHA, os bombeiros já tinham passado no VGD para vistoriar as instalações duas semanas antes. A nova vistoria foi feita para atender ao pedido do comando após a tragédia no Ninho do Urubu. "Hoje o alojamento do VGD é um dos mais seguros do Brasil. É melhor até do que de muitos times profissionais", declarou.
A reportagem também pediu autorização ao presidente da Portuguesa Londrinense, Edson Moretti, para visitar o alojamento do clube, mas teve o pedido negado. Ele justificou que o local passa por obras. "Não tem ninguém lá. Estamos mexendo com a reforma do alojamento. Havia uma exigência antiga do Corpo de Bombeiros para conceder o laudo. Eles pediam guarda-corpo, extintores, luzes de emergência. Este ano conseguimos cumprir tudo o que pediam", afirmou.


