Touchê (Humor na Copa)
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 03 de julho de 1998
Araken Kanado Especial para a Folha 
Prometi que não veria mais nenhum jogo do Brasil nesta Copa. Vocês sabem, eu passo mal, passo muito mal, passo pior que o Roberto Carlos! Mas não resisti.
Que sufoco, essa partida contra os dinamarqueses. Vou ter um troço! Cadê meu Lexotan? Cadê meu Isordil?
Quando ouço o hino, minhas mãos já começam a suar. Eu falo para a minha mulher, mas ela não acredita. Ela acha que meu mal estar é coisa da minha cabeça. Todo mundo acha. Até dona Consuelo, a nossa empregada, quando eu me queixo de alguma dor já vai dizendo : Isso é psicossomático, seo Araken!
Ninguém me leva a sério, mas sei que não vou durar até o fim desta Copa.
Eu ainda estava ajeitando a cabeça na almofada e os pés na bolsa de água quente quando, de repente, tomamos um gol. Não confio nos meus ventrículos, nas minhas aurículas, nem na defesa do Brasil. A zaga falha, o meio-de-campo não funciona e eu ainda sofro um ataque cardíaco!
Comecei a sentir o coração disparar. Liguei pro meu cardiologista, mas ele estava muito nervoso e não pôde atender.
Meu filho mais velho, que é o mais sensível da família, me aconselhou a desistir do jogo, tomar um banho frio, relaxar um pouco. Mas aí comecei a espirrar e achei melhor não fazer isto para não piorar as coisas. Minha saúde anda muito frágil, uma gripe agora poderia ser fatal.
Desisti de ver o jogo. Fui dar uma volta no quintal. Ouvi os fogos e voltei para a sala. Empatamos. E viramos. O pessoal estava bebendo quentão. Tomei um chazinho de erva cidreira.
Os jogadores da Seleção Brasileira voltaram para o segundo tempo na maior soneira. Veio o empate. O rendimento do nosso time caiu e a minha pressão desabou junto. Disse para o pessoal lá em casa que eu estava me sentindo meio tonto, mas ninguém deu importância. Meu cunhado ainda fez gracinha: Tudo bem, Araken, tem mais onze caras meio tontos em campo e um sujeito completamente tonto no banco.
Me tranquei no quarto, apaguei a luz e coloquei algodão nos ouvidos. Não queria saber o que estava acontecendo na França, na cidade, na sala da minha casa, em lugar nenhum. Mas me deu falta de ar. Sou caustrofóbico, vocês sabem. Abri as janelas e...fogos! Gritos! Vencemos!
Passamos para a semifinal. Agora estão falando que a gente pode pegar a Argentina. Aí já é demais! Meu coração não vai aguentar. Já mandei até preparar uma lápide com o meu epitáfio: Eu não disse?
- Araken Kanado é cronista esportivo e ligeiramente hipocondríaco
A BOLA DA VEZ


