Touchê (Humor na Copa)
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de junho de 1998
Agatha Triste Especial para a Folha 
A manhã ensolarada anunciava o verão europeu. No Château de Grande Romaine, na tranquila Lésigny, pairava um clima de mistério no ar. Muitas eram as dúvidas, escassas as respostas.
O homem de cabelos grisalhos, trajando um agasalho da Nike, cruzou o saguão do hotel. Tinha a testa franzida e os olhos apertados atrás dos óculos. Era um tipo miúdo, de idade indefinida entre os 60 e 80 anos, mas quem o tivesse visto quatro anos atrás e o reencontrasse agora diria que envelheceu no mínimo dez anos desde 1994.
Ele era o principal responsável pela inquietação geral. Antes de apertar o botão do elevador, o homenzinho olhou em volta, desconfiado. Sempre fora vigiado por muitos olhares. Dois tipos mal encarados se aproximaram dele e também apertaram o botão.
Quando a porta do elevador se abriu, o homem grisalho afastou-se um pouco e fez uma reverência, permitindo que os outros dois entrassem primeiro. Aí deu meia volta e saiu correndo em direção à escada, sem se importar com o ridículo da cena.
De repente uma horda armada de câmeras e microfones invadiu o elegante saguão, causando um burburinho. Fomos enganados!, berrava um sujeito de pequena estatura, com fisionomia de radialista do interior.
Cadê o homem? Cadê o homem? - gritavam vários profissionais da imprensa ao mesmo tempo. Alguém comentou que ele havia acabado de subir. Então a pequena multidão rumou para a escada, aos tropeções. Rumou ao apartamento número 13. Lá, os homens passaram a esmurrar a porta muito bem trancada e a gritar perguntas quase ininteligíveis:
- Entra o Denílson?
- Entra o Émerson?
- Por que o Denílson não é titular?
- O Gonçalves joga?
- Sai o Aldair?
- Sai o Júnior Baiano?
- O Ronaldinho se separou mesmo da Suzana Werner?
- Quem matou Salomão Ayalla?
- Quem matou Odete Roithman?
- Quem expulsou São Bernardo do Campo?
Uma confusão dos diabos. Enquanto isso, com sorriso maquiavélico nos lábios, o homenzinho fugia pela escada de serviço.
- Agatha Triste é pseudônimo de Jorge Simenão, cronista esportivo na Copa e autor de romances policiais
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