Berlim - Richard Vanigli foi um dos milhares de italianos que passaram os três meses que antecederam o Mundial da Alemanha em vigília pela recuperação de Francesco Totti. Na noite de 19 de fevereiro, ao chegar em casa, ele ouviu sua filha lhe perguntar se seria preso. Apoiador do Empoli, Vanigli foi o autor da falta em que o craque da Roma e da seleção quebrou a tíbia e rompeu ligamentos do pé esquerdo.
A ameaça de ver a Itália órfã de seu ''fantasista'' (craque mais habilidoso) virou motivo de preocupação até mesmo do então primeiro-ministro Silvio Berlusconi. Passados quase 150 dias, o destino se encarregou de mostrar o quanto Totti é especial: reservou-lhe a ocasião mais nobre para dizer seu muito obrigado à mobilização do país.
Totti já admitiu a amigos que a final da Copa do Mundo contra a França, hoje, em Berlim, deve ser sua última partida pela seleção italiana. Para ele, em particular, o jogo é um acerto de contas consigo mesmo e sua história com a camisa Azzurra, manchada depois do episódio de 14 de junho de 2004, no Estádio Dom Afonso Henriques, em Guimarães.
No jogo contra a Dinamarca, pela Eurocopa de Portugal, Totti foi expulso após cuspir por três vezes em Christian Poulsen. A imagem, captada por uma rede de TV dinamarquesa e usada pela Fifa para suspendê-lo por três jogos oficiais, transformou o filho mais nobre de Roma em símbolo de vergonha nacional.
Este ano, Totti se recolheu à sua arena. Virou as costas para a mídia e se dedicou como nunca a um programa de treinamento capaz de levá-lo ao melhor de sua forma, até que quebrou a perna, a 113 dias do pontapé inicial na Alemanha.
Os médicos disseram que ele precisaria de cem dias para se recuperar. Nesse tempo, a Itália não debateu se Totti, ainda que fora de suas melhores condições físicas, deveria ser convocado. Apenas temeu se Marcello Lippi não o fizesse. No dia seguinte à vitória sobre os donos da casa, na semifinal, o treinador confessou que nunca teve dúvidas em chamar o camisa 10. ''Sempre soube, pela dedicação de Totti, que ele jogaria o Mundial''.
Demonstrações de garra e fidelidade à camisa da Roma, clube que defende desde os 16 anos hoje tem 29 levaram sua apaixonada torcida a tratar Totti como uma espécie de ''gladiador encarnado''. No Estádio Olímpico, ele se acostumou a entrar em campo sobre os gritos de Imperador.
O desinteresse pelos milhões de Milan, Real Madrid e Manchester United só aumentaram a idolatria pelo capitão, que não fala inglês e, após as cusparadas em Poulsen, tentou apagar os arranhões em sua imagem se casando e tendo um filho.
Mas Totti está longe de ser um patrimônio exclusivo da capital italiana. É uma paixão nacional, o amor personificado dos italianos pelo futebol, alvo de admiração no mundo inteiro, inclusive de Pelé, que em janeiro, no Fórum Econômico Mundial, em Davos, declarou: ''Totti é o melhor jogador do mundo, apesar de não ter muita sorte''.
A idolatria da imprensa nacional por Totti, às vezes, é cega. Antes da Copa, dizia-se que, sem ele, a seleção era uma equipe ordinária. Com ele, poderia ser excepcional. Na Alemanha, o que se viu foi uma Itália que, com ou sem Totti, cresceu na competição amparada por um futebol competitivo, nada além disso.
O apoiador começou jogando contra Gana e Estados Unidos, foi poupado contra a República Tcheca e entrou no fim da partida contra a Austrália para marcar o gol salvador de pênalti que levou a Itália às quartas.
Contra a Alemanha, Lippi disse que, graças à dupla Totti e Pirlo, o time dominou o meio-campo, chave para desbancar os anfitriões. Hoje, Lippi e outros 59 milhões de italianos estarão esperando de Totti o seu algo mais, um lançamento milimétrico ou um chute certeiro que, no balanço da rede, soem como o seu ''muito obrigado''. (Agência O Globo)

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