Rio - De Capitão do tri, em 1970, a técnico do Flamengo, em 2002, Carlos Alberto Torres cultiva a personalidade. Detesta esconder a verdade e diz que a sinceridade é traidora no meio do futebol. Com 40 anos entre a lateral direita e o banco de reservas, o Capita, como é conhecido pelos quatro cantos do mundo pelo gesto histórico de ter erguido a Taça Jules Rimet, exibe alguns fios brancos e outros remanescentes que o credenciam a escrever um livro recheado de contos engraçados e polêmicos. Em um longo bate-papo, ele narra cenas dos bastidores da Copa de 70, passa por Pelé, fala da fama de chutador de balde e diz ter certeza que o Flamengo vai jogar por música nesta temporada.

TRABALHO
Três campeonatos – Além do Rio-São Paulo, o Flamengo disputará o Estadual e a Libertadores no primeiro semestre.
CONSAGRAÇÃO
Sete jogos – Disputou Carlos Alberto como lateral-direito na Copa do Mundo de 1970 até erguer a taça Jules Rimet.
EXPERIÊNCIA
Quarenta anos – Tem Carlos Alberto Torres no futebol, somando-se a carreira como jogador e como técnico.
PELÉ x JOÃO SALDANHA
‘‘O João Saldanha começou a implicar com o Pelé, iniciando a história de que o Crioulo (como Pelé era conhecido entre os companheiros) era míope, depois de uma preleção. O Saldanha deu as instruções num quadro negro, falou muito e perguntou se alguém tinha dúvida. O Pelé ergueu a mão, dizendo que sim. Ele se dirigiu ao quadro negro e apagou tudo, afirmando estar tudo errado. Fomos a campo e vencemos’’.
O REI
‘‘O Pelé não chega a ser meu ídolo, mas é um exemplo a ser seguido. A imagem dele é tudo. Com o Santos, fomos ao Congo, que vivia uma guerra, jogar uma partida. O Pelé chegou e houve uma trégua. Quando deixamos o país, a guerra recomeçou’’.
COPAS DO MUNDO
‘‘A verdadeira Copa do Mundo foi a de 70. Fomos campeões sem deixar dúvida. Ganhamos todo mundo desde as Eliminatórias. Bem diferente da Copa de 94, quando jogamos um futebol feio, em que só valeu o resultado. Fala-se muito mais da Copa de 82 do que a de 94. Era uma seleção maravilhosa’’.
PERSONALIDADE
‘‘Tenho o meu temperamento, minha cabeça. Não sou maluco, nem o dono da verdade. Não sei mais do que ninguém. Mas quando estou certo mantenho minhas posições. Infelizmente, quem fala a verdade no futebol brasileiro não alcança tanto sucesso quanto aqueles que seguram a onda, se calam. Por isso, fui capitão do Santos e da Seleção Brasileira’’.
PAVIO CURTO
‘‘Em 97, chutei o balde mesmo num jogo do Botafogo. Tinha alguns jogadores que não estavam se empenhando. Dei os nomes à diretoria e, pode ver, eles não estão mais lá. Não sou chutador de balde, mas não venha pisar no meu calo’’.
CALO PISADO
‘‘Tenho mágoa do Carlos Alberto Parreira que não convocou o meu filho (o zagueiro Alexandre Torres) para a Copa de 94. Encontrei o Parreira no Rio e perguntei a ele se tinha algo contra o meu filho. Recebi como resposta que ele precisava avaliar ainda o Ronaldão e o Cléber. Nada contra os jogadores, mas é brincadeira. O meu filho vinha de um tricampeonato pelo Vasco’’. NR: O que Torres respondeu a Parreira é impublicável.
UNIÃO
‘‘É de suma importância no futebol. Se o Pet e o Edílson ficassem no Flamengo eu acabaria com aquela guerrinha. Iria mostrar-lhes que isso não trouxe benefício algum para nenhum dos dois e nem para o grupo. Em 1970, por exemplo, os jogadores tinham a liberdade de, assim que sentir algo estranho no ar, pedir uma reunião. Aí o Pelé convocou uma. Levantou e perguntou ao Fontana (zagueiro) se houvesse algum problema, que fosse resolvido naquela hora. O Fontana abraçou e beijou o Pel钒.
MERCOSUL
‘‘Foi uma experiência nova depois de muitos anos. Não vejo problema em jogar em Buenos Aires, mas em situação normal. Existe o fanatismo. A Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) deveria mudar o local, colocar em outro lugar. Vale lembrar que os argentinos não são tão machos assim. Eles não disputaram a Copa América na Colômbia’’.
CONCENTRAÇÃO
Ficar em Paraíba do Sul é mole. Quero ver ficar em Omã sem nada para fazer. Tinha a praia como diversão. Mas eu nem colocava o pé na rua. Durante a Copa de 70, ficamos dois meses juntos. Mas todos estavam conscientes de que o sacrifício era necessário.’’

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