Torneio define titulares do Brasil
Rogério Fischer
Enviado da Folha
O bicampeonato da Copa América conquistado pelo Brasil no Paraguai começou a definir a equipe titular da Seleção para a Copa de 2002, que será realizada com Japão e Coréia. A atuação dos diversos jogadores convocados deu ao técnico Wanderley Luxemburgo noções mais detalhadas da capacidade de cada um frente a situações que envolvem a disputa de um torneio oficial. Confira, a seguir, uma análise do comportamento dos jogadores na Copa América e as chances de cada um participar do próximo Mundial.
DIDA
Com a desistência de Taffarel, disputaria, palmo a palmo, a posição com Carlos Germano em Foz. Com a contusão do vascaíno, ficou sem sombra, mostrou mais virtudes do que defeitos na Copa América (o dom de defender pênaltis, por exemplo, ofusca totalmente a deficiência nas saídas de bola) e, aos 25 anos, está adquirindo experiência para não sair mais do time.
CAFU
Chegou à Copa de 98 desacreditado, superou-se e agora, com Luxemburgo, conquistou não só a posição como a faixa de capitão da equipe. Se não aparecer nenhuma grande revelação neste segundo semestre ou no ano que vem, será o lateral da Seleção na Copa de 2002.
JOÃO CARLOS
Suas atuações na Copa América provaram que a vaga de zagueiro central ainda está aberta. Luxemburgo fez uma aposta arriscada ao escalá-lo contra a Argentina (único teste de fogo da Seleção no Paraguai), em lugar do seguro Odvan. Foi o responsável direto pelo gol de Sorin, que obrigou a equipe a se desdobrar pelo resultado. Mesmo contra o México, na semifinal, abriu buracos estratosféricos na defesa.
ANTÔNIO CARLOS
É o preferido de Luxemburgo na zaga, por três motivos: experiência, altura e capacidade de sair jogando - importante para a ligação com o meio-campo. Uma vantagem para Luxemburgo é que ele pode atuar também como central e abrir vaga para um quarto-zagueiro com quem mais se afine.
ROBERTO CARLOS
Antes, no Palmeiras e no próprio Real Madrid, era um jogador diferenciado pela potência - e, muitas vezes, precisão - de seus chutes. Faz tempo que não é temido pelos goleiros. Saiu da Copa da França totalmente desacreditado, mas, com Luxemburgo, colocou a cabeça no lugar e começa a perder o antipático estigma de mascarado. Virou um lateral comum, que defende primeiro para, se der, atacar. Para garantir posição, porém, depende muito da parceria com Zé Roberto. Sem ele, vira mais comum ainda.
ÉMERSON
Não tem jeito: todo time precisa mesmo de um cão-de-guarda. De preferência, com algo mais. Émerson parece reunir esses atributos. Além de uma marcação implacável, às vezes apresenta-se na frente - concluindo ou servindo os companheiros. Para ser mais eficiente, precisa apenas perder o hábito de achar que todo jogo é apitado por árbitros alemães.
FLÁVIO CONCEIÇÃO
Um dos que brigam pela posição de segundo volante defensivo. Tem adversários ferrenhos. Primeiro, César Sampaio, que seria titular na Copa América se não se machucasse. Depois, outros dois jogadores que tornam o time mais técnico e ofensivo: Zé Roberto (caso seja recuado) e Vampeta, de quem Luxemburgo gosta muito. De qualquer forma, é importante tê-lo no grupo. Até para substituir Cafu na lateral.
ZÉ ROBERTO
Um dos melhores do Brasil na Copa América. Aumentou seu cacife na Seleção por ter uma característica exigida por Luxemburgo: a versatilidade. Defende bem, arma bem e ataca bem. Se o treinador mantiver a tática de deixar apenas um jogador sem obrigação de marcar (no caso Rivaldo), tem posição garantida. Mesmo que Luxemburgo decida escalar um segundo meia ofensivo (Alex ou Juninho, por exemplo), brigaria tranquilamente por uma vaga de segundo volante.
RIVALDO
Ao obedecer a ordem de prender menos a bola, mostrou o craque que é. Suas atuações na Copa América comprovam seu talento: tem colocação, domínio, lança bem, chuta como poucos, cobra faltas com perfeição e sabe cabecear. É um jogador capaz de fazer a diferença. Motivado e bem orientado, é indispensável.
RONALDO
Sua recuperação física é evidente, mas limitada. Para jogar com tranquilidade daqui para frente, será necessário que os dois lados - jogador e torcedores - coloquem a cabeça no lugar. Chega a ser irritante sua obsessão em recuperar o título de melhor do mundo. Em meio à Copa América, disse, em várias entrevistas, que tem seis meses para jogar bem e ser eleito novamente pela Fifa como o número 1. Pura preocupação com um título que lhe assegure faturamento astronômico advindo de um fortíssimo esquema de marketing (tentem achar, nas lojas de materiais esportivos, uma camisa do Brasil que não seja a de número 9 com o nome dele estampado nas costas). E os torcedores precisam entender que Ronaldo, após as várias contusões sofridas nos últimos dois anos, jamais será aquele explosivo atacante do Barcelona que, sozinho, deixava uma fieira de zagueiros para trás. Depende da equipe - e mal comemora os gols dos companheiros. Se faz de humilde - e aponta a si próprio como herói do jogo com a Argentina. Reivindica descanso - e tem agenda a cumprir (para lançamento de uma marca de relógios) do outro lado do mundo. Hoje, é apenas um bom jogador - e só isso. Amoroso não fica lhe devendo nada; Elber, também. Ademais, estes sabem cabecear.
AMOROSO
Só não foi o artilheiro da Copa América porque, dentro do conjunto, aceitou ser o segundo atacante da Seleção. Ao lado de Ronaldo, a quem a comissão técnica concede visível atenção especial, representa o que Irvine é em relação a Schumacher na escuderia Ferrari. É um atacante que se entrosa com qualquer companheiro - eis a grande virtude.
MARCOS
Apenas tapou o buraco aberto pela contusão de Carlos Germano. Com Dida em esplendorosa fase, limitou-se a curtir o ambiente da Seleção. Se mantiver a boa fase no Palmeiras, pode garantir novas convocações.
EVANÍLSON
Não é capaz de fazer sombra a Cafu. Mas é jovem (23 anos) e tem muito a crescer.
ODVAN
Perdeu a posição para João Carlos - recém-contratado pelo Corinthians - sem ter comprometido a equipe em nenhum momento nos jogos contra Venezuela e México.
CÉSAR
Não jogou um segundo sequer na Copa América, mas mostrou uma virtude: paciência e espírito de grupo. Tem de agarrar a primeira oportunidade. E ela tem nome: Copa das Confederações.
SERGINHO
Vinha jogando no São Paulo muito mais que Roberto Carlos no Real Madrid. Luxemburgo optou pela experiência do primeiro e seu entrosamento com Zé Roberto. Agora no Milan, depende do que mostrar na Itália.
VAMPETA
Sinônimo de versatilidade, tem lugar assegurado no time de Luxemburgo. É a garantia de ligação com os jogadores de frente e de uma saída de bola mais eficiente do que a vista nos jogos contra Argentina e Uruguai, em que o Brasil sofreu marcação sob pressão.
MARCOS PAULO
Outro que não teve chance alguma na Copa América. Não ameaça os titulares.
BETO
Convocado de última hora para o lugar do desertor Leonardo, quase comprometeu a equipe no clássico contra a Argentina - cometeu pênalti desnecessário e foi salvo por Dida.
ALEX
Fez jus à fama de craque dorminhoco. Quando foi craque, decidiu o jogo contra o México, na primeira fase. Quando foi dorminhoco, perdeu a posição para Zé Roberto. Se Luxemburgo mantiver a tática de escalar apenas um meia ofensivo sem obrigação de marcar, terá de disputar posição com Rivaldo.
RONALDINHO
Chamado para substituir o indisciplinado Edílson, ganhou chance logo no primeiro jogo, com a Venezuela, e marcou o gol que o projetou internacionalmente. Abusado e criativo, deve travar duelo com o próprio Edílson por uma vaga no grupo de 22 - dependendo do que aprontar daqui por diante.
CHRISTIAN
Pouco aproveitado no Paraguai, terá sua grande chance, a partir de sábado, na Copa das Confederações. Com a Seleção sem os europeus, deve fazer dupla de ataque com Ronaldinho no México.
WANDERLEY LUXEMBURGO
Obteve sucesso em seu primeiro torneio oficial frente à Seleção. Previu acertadamente que a equipe ganharia entrosamento e, consequentemente, qualidade no decorrer da Copa América - e o time realizou sua melhor apresentação na final com o Uruguai. Com o cacife que tem com os torcedores, a imprensa e a CBF, deve chegar a 2002 sem problemas.





