Osmani Costa
De Londrina
As frases são normalmente simples e sem nenhuma criatividade. Mas servem para o único objetivo que os portadores dos cartazes e faixas têm: aparecer. Eles estão dispostos a fazer qualquer esforço para conseguir, ainda que por poucos segundos, ser os atores principais das emissoras de televisão durante as transmissões de jogos de futebol. Principalmente quando está envolvida a Seleção Brasileira.
Ontem também foi assim no Estádio do Café, durante a rodada de abertura do Grupo B do Torneio Pré-Olímpico. O primeiro jogo começaria às 19h30, mas por volta das 18 horas os aprendizes de atores – normalmente estudantes em férias – começaram a chegar ao estádio. Eles sabiam que a espera pela tão sonhada aparição na TV seria longa, pelo menos até o início do jogo do Brasil x Chile às 21h40, mas não se importavam nem um pouco com isto.
Os irmãos Rodrigo e Vinícius Fidélis, que moram em Nova Friburgo, foram ao Café para tentar aparecer na Globo e mandar um abraço para os parentes e amigos no Rio de Janeiro. ‘‘Alô Galvão (Bueno). Em 2000 estamos com você e a seleção’’, dizia o cartaz dos cariocas, assinado com os apelidos deles na cidade de origem.
Eles estão passando as férias em Apucarana (55 km a oeste de Londrina) e disseram acreditar que, adulando o controvertido narrador da TV carioca, conseguiriam mandar o recado ao amigos no Rio de Janeiro. ‘‘No Rio, todo mundo é Globo. Se precisa puxar o saco do Galvão para aparecer, a gente puxa’’, admitiu Rodrigo, 20 anos, que é torcedor do Fluminense. Vinícius, que torce para o Flamengo, concorda com o irmão: ‘‘Já fizemos isto outras vezes, no Maracanã, e deu certo. Depois do jogo, vamos telefonar para o Rio e falar com a nossa turma, para ver se desta vez a estratégia deu resultado.’’
Outros que vieram de longe para tentar sair do anonimato no meio da multidão foram os primos Éris, de 18 anos e Thaís de 12. Os estudantes moram em Borrazópolis (140 km a sudeste de Londrina) e vieram assistir aos jogos com familiares. ‘‘Queremos aparecer na televisão só para que os telespectadores saibam que a nossa cidade, que é pequenininha, existe e é importante para muita gente’’, contou Thaís.
Um grupo de oito jovens londrinenses também foi ao estádio na busca da ‘‘fama fácil’’. Liderados por Alexandre Garcia, 21, eles portavam um cartaz com dizeres mais incisivos: ‘‘E aí, Galvão. Vai mostrar a gente ou não vai. O Brasil é tetra.’’ Bebendo cerveja, eles fizeram festa no portão de entrada e explicaram, sem meias palavras, o motivo do cartaz. ‘‘Nossa intenção é chamar a atenção. É fazer marketing e divulgar Londrina para o Brasil, além, é lógico, de aumentar nossa moral, nossa credibilidade com as gatinhas’’, admitiram Alexandre e seus colegas.
Os cartazes quase sempre são escritos com canetas ponta porosa em papel de péssima categoria. Apesar de proibidas pela organização do torneio e da rigorosa fiscalização nos portões de entrada, pelo menos uma faixa com motivação política foi aberta na arquibancada ontem. ‘‘Chega de corrupção em Londrina’’, era a frase da faixa, talvez numa alusão a investigações que a Promotoria Pública faz sobre a denúncia de superfaturamentos e desvios de verbas em duas autarquias municipais.Para quem gosta, vale até puxar o saco do apresentador famoso para conseguir sua imagem por alguns instantes na telinha
César AugustoADEUS, ANONIMATOOs primos Éris e Thaís: ‘Queremos aparecer na TV só para que saibam que nossa cidade existe e é importante’