Paulo Briguet
Um treino passou para a história do Estádio do ABC, em Foz do Iguaçu. Ontem, no melhor programa de domingo desde o início dos preparativos para a Copa América, o público pagou ingresso de R$ 10,00, garantiu a lotação do estádio e viveu um dilema: torcer pelo Foz ou pelo Brasil?
A maioria optou pela saída mais fácil - torcer para os dois. Com a tranquilidade de quem se sente em casa, o público aplaudiu Amoroso, reclamou do juiz PC, incentivou Anderson e fez a ola. Em dia de jogo-treino da Seleção, até tiro de meta é motivo de festa. O estádio recebeu ontem 8,5 mil pessoas, segundo informou a diretoria do ABC.
A dona de casa Silvana Consolari não conhecia o Estádio do ABC por dentro - até a Seleção vir para Foz. Grávida de 7 meses, ela agora não perde um treino. Mas tem críticas. ‘‘Hoje (ontem), a Seleção nem usou números nas camisetas. Eles poderiam ter mais respeito com a torcida, que afinal pagou ingresso’’, diz Silvana.
O motorista Adalberto Narvaz não se dividiu entre as duas equipes. Vestiu a camisa do time da casa e deixou guardada a camisa amarela. Ele vem ao ABC desde a infância; garante que há alguns anos, numa partida do Foz contra o Atlético Paranaense, o ABC ficou mais cheio. Ele elogiou atuações do Foz. ‘‘O Anderson é um ídolo na cidade. E esse Chico (meia) vai dar muito o que falar’’, afirmou. Quanto ao Brasil, ele acredita que o destaque da Copa América será o paranaense Alex. O motorista pretende transportar torcedores até Ciudad del Este e assistir a todos os jogos do Brasil no Paraguai.
Dois colegas de profissão de Adalberto também irão à Copa América. Mas os irmãos Silmar e Carlos Roberto Pacheco vivem uma situação bastante peculiar. Eles trabalham no Rafain Palace Hotel, onde está hospedado o time do Chile, adversário do Brasil na primeira fase da competição. Silmar e Carlos atuam no transporte de parte da delegação chilena. Ambos garantem que os adversários são simpáticos. Mas, em dia de folga, a conversa muda: os motoristas vestem a camisa da Seleção Brasileira. ‘‘Por mais que a gente goste dos chilenos, não dá para torcer por eles, né?’’, diz Carlos Roberto.
O técnico em informática Marcos Lucas Barbosa, que trabalha na Usina de Itaipu, não deve ir à Copa América, por causa do preço dos ingressos. Mas ontem levou a mulher e os dois filhos para ver a Seleção de perto. ‘‘Queria ver o Edmundo nesse time, mas confio no Brasil. Sou um torcedor convicto: não importa que o time esteja em crise ou não’’, declara Barbosa. Até o fim da Copa, ele quer conseguir autógrafos dos jogadores do Brasil para o filho Bruno César, de 7 anos, destaque do futebol de salão infantil na cidade. ‘‘Sei que sou suspeito para dizer, mas o garoto tem futuro’’, garante o pai. Enquanto ele falava, a torcida gritava um inusitado olé de outro jogador de futsal - era Anderson, reforço da equipe de Foz, aprontando das suas contra a Seleção.
Enquanto um balão e um helicóptero sobrevoavam o estádio e faziam publicidade, em terra os vendedores tentam aproveitar o raro dia de estádio cheio. A comerciante Jacira Louzano Silveira esperava vender pelo menos 300 cachorros quentes para enganar a fome da galera. ‘‘Essa Copa América vai ser boa para a gente’’, ela acredita. Everaldo dos Santos de Oliveira veio de Curitiba exclusivamente para vender faixas do Brasil. Gremista, ele quer ganhar um dinheiro extra e, se for possível, dar uma olhada nas estripulias de Ronaldinho, atacante de seu time, nos gramados paraguaios. Se Wanderley Luxemburgo colocar o garoto em campo, é claro.

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