Londrina O dia nem tinha amanhecido quando a Seleção Brasileira entrou em campo. Londrina ainda estava no escuro mas muita gente resolveu acordar mais cedo – bem mais cedo! Na recepção da Santa Casa, transformada num pequeno auditório, pacientes, médicos e enfermeiros eram todos torcedores. Alguns em cadeiras de roda, com o soro ao lado. ‘‘A gente até esquece da doença quando começa o jogo’’, confessa Gentil Higuinoti, 60 anos.
O taxista Angelo Silvestre, 41 anos, trocou o sono por uma vitória do Brasil e arriscou: ‘‘O jogo está bom, o Brasil vai bem, vamos ganhar de 2 x 1’’. A tv foi instalada em cima de um banco, no ponto de táxi da Alameda Miguel Blasi. Em pé, numa rodinha, os motoristas acompanhavam atentamente todos os lances.
No terminal de transporte coletivo as filas eram todas na mesma direção – a telinha da tv. Como nem todos os pontos tinham televisão, teve gente que ficou na fila errada: ‘‘Esse nem é o nosso ônibus mas a gente está aproveitando uns minutinhos para ver a seleção’’, confessa Maria dos Santos Nogueira, 39 anos, enfermeira. Ela e a amiga Ines Vieira da Silva, 33 anos, moram em Cambé e trabalham num posto de saúde de Londrina: ‘‘E se sair um gol bem na hora que a gente estiver indo para a outra fila... Meu Deus?!’’.
No final do primeiro tempo o sol aparece e o dia começa tenso; ainda nem um gol do Brasil. Na esquina onde funciona o Bar Brasil, no centro da cidade, os flanelinhas madrugaram. Acabaram aglomerados nas portas do bar, preocupados com o jogo e esquecidos dos poucos carros lá fora. Pouca gente saiu de casa para assistir o jogo. A dona do bar, Mara Neide Tucumantel, 45 anos, garante que só abriu para preservar a tradição: ‘‘A gente sabia que o horário é maluco e que pouca gente viria mas nossos clientes mereciam uma satisfação’’. Por causa do horário, o bar trocou os aperitivos por um café da manhã: leite, chocolate, torradas, pães, bolos e frutas. A maioria dos torcedores aprovou: ‘‘Para mim, que não bebo, jogo com café está sendo o máximo. Achei legal demais’’, conta Gisele Cristina da Silva, 18 anos, estudante.
Na escola – Por causa da estréia brasileira na Copa do Mundo, as aulas começaram mais tarde hoje. Alguns colégios, como o Marista, instalaram um telão no ginásio. A idéia agradou os alunos, que preferiram assistir o jogo com os amigos do que em casa. As mochilas ficaram nas arquibancadas e a maioria das crianças ficava em pé, esperando o primeiro gol que não vinha nunca. Gritos, só de frustração. Quando Ronaldinho marca o primeiro gol, o ginásio vira uma festa.
Nos últimos minutos do jogo, professores gritavam como crianças. Ninguém parecia lembrar que logo depois teria que enfrentar uma aula: ‘‘Os alunos da oitava série e do colegial têm prova hoje. Vai ser difícil controlar o pessoal depois do jogo mas vamos tentar’’, afirma Eliane Giroto, 38 anos, professora de português.
O pênalti ‘‘cavado’’ por Luizão foi comemorado como se fosse um gol. Quando Rivaldo marca, o ginásio vem abaixo. Aos 43 minutos do segundo tempo, falta a favor da Turquia. Um grupo de meninas reza. A fé e a torcida acabam dando certo, o juiz apita e o jogo chega ao fim.

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