Se já estava convicto, ficou ainda mais: para o comerciante Cláudio Márcio da Silva, detido pela Polícia Militar durante o treino de domingo passado no Estádio do ABC, a CBF deveria, imediatamente, trocar Wanderley Luxemburgo por Luiz Felipe Scolari no comando técnico da Seleção Brasileira.
Naquela tarde, em que o time do Brasil realizou seu único treino tático para o jogo com o Paraguai, Cláudio, de 31 anos, foi ao estádio aproveitando que não haveria cobrança de ingressos e, na companhia de um amigo, gritou várias vezes, do alto das arquibancadas:
– Felipão é a solução! Felipão é a solução!
Repreendido por policiais militares (‘‘Cala a boca, fica na sua, você está perturbando’’, teria dito um tenente a ele), Cláudio, sócio de uma loja de autopeças na Vila Portes, bairro próximo à Ponte da Amizade, em Foz do Iguaçu, logo voltou à carga:
– Felipão é a solução! Felipão é a solução!
Pegaram Cláudio pelo braço e o levaram até um posto da PM no Fórum. Resultado: o Termo Circunstanciado número 1034/00 e a imediata intimação para uma audiência às 9 horas do dia 14 de agosto, quando Cláudio, acompanhado de um advogado, terá de se defender, no Juizado Especial Criminal, da acusação de ‘‘portar-se de modo desrespeitoso em espetáculo público’’, como dita o artigo 40 da Lei das Contravenções Penais.
– Não agredi a Seleção, não falei nenhum palavrão, apenas me manifestei; tenho liberdade para me expressar – afirma o acusado, que se orgulha de ter participado ativamente da campanha Diretas-Já (estava naquele histórico comício que reuniu 1 milhão de pessoas na Praça da Sé, em São Paulo) e guarda até hoje, em casa, um daqueles pequenos exemplares da Constituição de 88.
– Foi um abuso de autoridade – diz ele, referindo-se à ação da PM.
Flamenguista no Rio (onde nasceu) e palmeirense em São Paulo (onde viveu a infância e a adolescência), Cláudio Márcio da Silva nem quer saber de Luxemburgo na Seleção.
– Você viu o jogo com o Paraguai, que desastre? Só porque enfiaram 7 a 0 naquele Cataratas (jogo-treino de sábado passado, em Foz) o time achou que estava com a bola toda. Se jogasse contra o Bangu perdia de 4 a 0 – esbraveja o torcedor, para quem Wanderley Luxemburgo está com ‘‘muito lero-lero e papo furado’’.
Cláudio justifica sua preferência por Felipão:
– Ele tem a manha de dominar o elenco, fazer os jogadores criarem mais, jogar bem mesmo sem nome, sem estrelas – afirma. O Felipão tem experiência com esse pessoal aí: 60% dessa Seleção são de jogadores que já jogaram com ele no Palmeiras – ele acrescenta.
Lembrado de que Luxemburgo também trabalhou com os mesmos jogadores no mesmo Palmeiras, Cláudio justifica:
– Mas o Felipão tem uma direção diferente, mais firme; com ele, o time joga com mais raça.
O torcedor cobra ainda uma ‘‘atitude’’ do presidente da CBF, Ricardo Teixeira:
– Ele precisa ser mais decidido. Está se escondendo. Não fala, não declara nada. Tem que tomar uma posição. Daqui a pouco ele sai pela porta dos fundos que nem o Cafu – dispara o torcedor, que já vê riscos de o Brasil não se classificar para a Copa do Mundo de 2002.
– Se perder da Argentina na quarta-feira...

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